Pressão alta descontrolada e limitações funcionais podem abrir caminho para o Benefício de Prestação Continuada, desde que sejam atendidos os critérios médicos e socioeconômicos previstos em lei
Milhões de brasileiros utilizam a losartana diariamente para controlar a hipertensão arterial. Para a maioria dos pacientes, o medicamento ajuda a manter a pressão sob controle e reduz significativamente o risco de infarto, AVC e insuficiência cardíaca. No entanto, há casos em que, mesmo com tratamento contínuo, a doença permanece descompensada e passa a comprometer a capacidade de trabalho e a realização das atividades mais simples do cotidiano.
Nessas situações, especialistas em Direito Previdenciário alertam que algumas pessoas podem preencher os requisitos para solicitar o Benefício de Prestação Continuada (BPC/LOAS). É importante destacar, porém, que o simples uso da losartana ou o diagnóstico de pressão alta não garantem automaticamente o direito ao benefício.
O BPC é um benefício assistencial previsto na Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS), pago pelo INSS, equivalente a um salário mínimo mensal. Diferentemente da aposentadoria, ele não exige contribuição anterior ao INSS.
Quem pode ter direito?
O benefício é destinado a dois grupos:
- Idosos com 65 anos ou mais em situação de baixa renda;
- Pessoas com deficiência de qualquer idade que apresentem impedimentos físicos, mentais, intelectuais ou sensoriais de longo prazo, capazes de limitar sua participação plena e efetiva na sociedade.
No caso da hipertensão, o direito pode surgir quando a doença evolui para um quadro grave e persistente, causando limitações funcionais importantes.
Pacientes que apresentam pressão arterial constantemente elevada, mesmo utilizando medicamentos como a losartana, podem desenvolver sintomas como:
- tonturas frequentes;
- dores de cabeça intensas;
- falta de ar;
- dor no peito;
- episódios recorrentes de internação;
- dificuldades para exercer atividades profissionais ou domésticas.
Entretanto, cada caso é analisado individualmente pelo INSS, considerando tanto a condição clínica quanto a situação socioeconômica da família.
Documentação faz diferença
Especialistas recomendam reunir documentação médica completa para fortalecer o pedido.
Entre os principais documentos estão:
- laudo médico detalhado, contendo o CID, diagnóstico, tempo de tratamento e descrição das limitações;
- exames como MAPA (Monitorização Ambulatorial da Pressão Arterial), eletrocardiograma, ecocardiograma e Holter, quando indicados;
- receitas dos medicamentos de uso contínuo;
- prontuários médicos e relatórios de acompanhamento.
Quanto mais consistente for a comprovação da limitação funcional, maiores são as chances de uma análise adequada pelo INSS.
Baixa renda continua sendo requisito
Além da condição médica, o BPC exige comprovação de vulnerabilidade econômica.
Embora a legislação estabeleça critérios objetivos de renda familiar por pessoa, decisões recentes da Justiça têm reconhecido que famílias com renda um pouco superior ao limite legal também podem receber o benefício quando comprovam despesas elevadas com medicamentos, alimentação especial, aluguel ou tratamentos médicos.
Outro ponto importante é que o fato de existir alguém na residência com carteira assinada não impede automaticamente a concessão do benefício. Da mesma forma, mais de um integrante da mesma família pode receber o BPC, desde que cada um preencha os requisitos legais.
Diversas doenças podem dar origem ao pedido
O BPC não é concedido com base no nome da doença, mas nas limitações que ela provoca.
Entre as condições frequentemente analisadas estão:
- Transtorno do Espectro Autista (TEA);
- TDAH;
- Síndrome de Down;
- deficiência auditiva;
- deficiência visual ou visão monocular;
- paralisia cerebral;
- amputações;
- câncer;
- AVC;
- esclerose múltipla;
- doença de Parkinson;
- doença de Alzheimer;
- insuficiência cardíaca;
- cardiopatias;
- arritmias;
- hipertensão grave com comprometimento funcional;
- diabetes com complicações;
- epilepsia;
- fibromialgia;
- lúpus;
- HIV/Aids;
- transtornos psiquiátricos graves, como esquizofrenia e transtorno bipolar.
Atenção para informações que circulam nas redes sociais
Publicações nas redes sociais costumam simplificar excessivamente as regras do BPC, levando muitos brasileiros a acreditar que determinadas doenças, isoladamente, garantem o benefício.
Na prática, a análise realizada pelo INSS envolve avaliação médica, estudo social e comprovação da vulnerabilidade econômica. Portanto, utilizar losartana ou possuir diagnóstico de hipertensão arterial, por si só, não gera direito automático ao benefício.
Antes de protocolar um pedido, é recomendável reunir toda a documentação médica atualizada e buscar orientação especializada para verificar se os critérios legais realmente são atendidos.
Fontes: Lei Orgânica da Assistência Social (Lei nº 8.742/1993); Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015); regulamentações do INSS; decisões consolidadas dos tribunais sobre critérios de vulnerabilidade social.


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