O sucesso dos medicamentos para perda de peso em humanos, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, já começa a influenciar uma nova fronteira da medicina: o tratamento da obesidade em animais de estimação. Empresas de biotecnologia, universidades e a indústria veterinária vêm investindo em pesquisas com medicamentos inspirados nos agonistas do receptor de GLP-1, hormônio responsável por aumentar a saciedade e auxiliar no controle da glicemia.
Apesar do crescente interesse do mercado, especialistas alertam que ainda não existe um medicamento equivalente ao Ozempic aprovado para uso rotineiro em cães e gatos, e que remédios desenvolvidos para humanos jamais devem ser administrados aos animais sem orientação veterinária.
Obesidade pet cresce no mundo
A obesidade já é considerada uma das doenças nutricionais mais comuns entre animais de companhia. Estudos internacionais apontam que entre 40% e 60% dos cães e gatos apresentam excesso de peso ou obesidade, dependendo da população avaliada.
O problema vai muito além da estética. Assim como acontece com humanos, o excesso de gordura corporal aumenta significativamente o risco de doenças como:
- Diabetes mellitus;
- Osteoartrite;
- Hipertensão;
- Doenças cardiovasculares;
- Problemas respiratórios;
- Redução da expectativa e da qualidade de vida.
Com o crescimento desse cenário, especialistas acreditam que o mercado veterinário pode repetir, em menor escala, a revolução observada na medicina humana.
Empresas já desenvolvem terapias
Entre os projetos mais avançados está o da Okava Pharmaceuticals, que desenvolve o OKV-119, um implante subcutâneo baseado em exenatida, outro agonista do GLP-1.
A proposta é bastante diferente das canetas utilizadas por humanos. O medicamento seria implantado sob a pele e liberaria lentamente a substância por aproximadamente seis meses, reduzindo a frequência das aplicações.
Outra empresa envolvida é a Vivani Medical, responsável pela tecnologia de liberação prolongada utilizada no projeto.
Já a Akston Biosciences, em parceria com a Cornell University College of Veterinary Medicine, conduz estudos clínicos com o AKS-562c, uma formulação semanal voltada ao controle de peso em gatos.
Até o momento, todos esses produtos permanecem em fase experimental e ainda precisam passar por estudos de eficácia e segurança antes de qualquer aprovação comercial.
Ciência vê potencial, mas pede cautela
Pesquisas publicadas em revistas científicas mostram que os agonistas de GLP-1 apresentam potencial para controlar o apetite e melhorar parâmetros metabólicos em felinos.
Entretanto, os pesquisadores destacam que ainda faltam respostas importantes sobre:
- dose ideal;
- segurança em longo prazo;
- diferenças metabólicas entre espécies;
- possíveis efeitos adversos.
Por isso, o uso clínico ainda não faz parte da rotina da medicina veterinária.
Muito além dos medicamentos
Enquanto as pesquisas avançam, o setor pet já vive uma corrida comercial envolvendo alimentos terapêuticos, snacks funcionais, suplementos nutricionais e programas completos de emagrecimento para cães e gatos.
O segmento acompanha uma tendência mundial conhecida como “humanização dos pets”, em que os tutores investem cada vez mais em prevenção, longevidade e qualidade de vida dos animais.
Analistas avaliam que a obesidade animal poderá se tornar um dos maiores mercados da saúde veterinária na próxima década.
Especialistas fazem alerta
Veterinários reforçam que Ozempic, Wegovy, Mounjaro e outros medicamentos humanos nunca devem ser administrados em animais por conta própria.
Além de não existirem doses aprovadas para cães e gatos, diferenças no metabolismo podem provocar efeitos graves, incluindo hipoglicemia, distúrbios gastrointestinais e outras complicações.
O tratamento da obesidade em pets continua baseado principalmente em alimentação adequada, controle calórico, atividade física e acompanhamento veterinário individualizado.
Enquanto isso, as pesquisas seguem avançando para verificar se os medicamentos que revolucionaram o combate à obesidade humana também poderão transformar a medicina veterinária nos próximos anos.
Fontes: Revisões científicas publicadas na PubMed; Cornell University College of Veterinary Medicine; Okava Pharmaceuticals; Akston Biosciences; Vivani Medical.


0 comentários