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“Gourmet” virou desculpa? Chef Rodrigo Oliveira questiona moda que tomou conta da comida

por admin | set 10, 2026 | Geral

Rodrigo Oliveira, à frente do restaurante Mocotó, afirma que ingredientes tradicionais não precisam de rótulos sofisticados para ganhar valor e aposta na mandioca como símbolo da gastronomia nacional

Um dos nomes mais reconhecidos da gastronomia brasileira, o chef Rodrigo Oliveira não esconde sua preferência pela comida simples, bem preparada e carregada de memória afetiva. Criador do famoso dadinho de tapioca e responsável pelo restaurante Mocotó, em São Paulo, ele critica o uso indiscriminado da palavra “gourmet” para valorizar receitas que, muitas vezes, apenas deveriam ser produzidas com ingredientes de qualidade.

Durante participação no GQuiz, da GQ Brasil, Rodrigo afirmou que expressões como “cerveja gourmet”, “pão gourmet”, “chocolate gourmet” e “brigadeiro gourmet” podem servir para disfarçar versões descaracterizadas ou de baixa qualidade desses alimentos.

Para o chef, um chocolate feito corretamente não precisaria receber uma classificação adicional para ser reconhecido como bom. A discussão levantada por ele vai além das palavras: envolve a qualidade das matérias-primas, o respeito às técnicas e a preservação da identidade dos alimentos.

Comida rápida também pode ser boa

Rodrigo Oliveira também contesta a ideia de que toda comida rápida precisa ser industrializada ou nutricionalmente pobre. Embora diga que raramente frequenta grandes redes de fast food, ele admite não resistir a uma barraca de tapioca.

As versões com coco ou queijo estão entre suas preferidas. O exemplo reforça uma visão defendida pelo chef: rapidez e simplicidade não são sinônimos de comida ruim. Preparações tradicionais podem ser servidas rapidamente sem perder sabor, qualidade ou identidade cultural.

A mandioca como patrimônio brasileiro

Na avaliação de Rodrigo, a mandioca reúne condições para representar o Brasil no cenário gastronômico internacional. Presente na alimentação indígena muito antes da colonização, o ingrediente atravessou gerações e hoje aparece em receitas populares e sofisticadas.

Da raiz são obtidos produtos como farinha, fécula, polvilho, tucupi, goma de tapioca e sagu. Ela também pode ser consumida cozida, frita, assada ou transformada em massas, bolos, pães, caldos e acompanhamentos.

Foi justamente da fécula da mandioca que nasceu uma das criações mais conhecidas de Rodrigo Oliveira: o dadinho de tapioca. Crocante por fora e macio por dentro, o petisco ultrapassou as paredes do Mocotó e passou a ser reproduzido em bares e restaurantes de diferentes regiões do país.

Para o chef, embora outras culturas tenham desenvolvido grande domínio sobre milho, trigo, arroz e feijão, o Brasil construiu uma relação especialmente ampla com a mandioca, tanto no campo quanto na cozinha.

Uma história construída dentro do Mocotó

A ligação de Rodrigo com a gastronomia começou cedo. O Mocotó foi fundado em 1973 por seu pai, José de Almeida. Rodrigo começou a trabalhar no estabelecimento ainda jovem, em 1993, e assumiu a condução do restaurante em 2001.

Localizado originalmente na Vila Medeiros, na Zona Norte de São Paulo, o espaço ganhou projeção nacional e internacional ao valorizar sabores do sertão nordestino por meio de pratos como baião de dois, carne de sol, caldo de mocotó, torresmo e dadinho de tapioca.

Em 2026, o Mocotó foi escolhido pela nona vez como o melhor restaurante de comida brasileira na pesquisa Datafolha. O grupo também ampliou sua presença na capital paulista, com unidades na Vila Leopoldina e na Vila Clementino. Segundo a Folha de S.Paulo, o dadinho continua entre os pratos mais emblemáticos da casa.

O sabor das memórias

Parte da relação de Rodrigo com a comida nasceu durante a infância. Entre as lembranças mais marcantes está o hábito de colher e comer frutas maduras diretamente do pé — experiência que, para ele, dificilmente pode ser superada até mesmo pelos restaurantes mais sofisticados.

Com raízes familiares pernambucanas, o chef também coloca Pernambuco entre os principais destinos gastronômicos do Brasil. A afirmação carrega afeto, identidade e a defesa de uma cozinha construída a partir do território e das tradições populares.

A visão de Rodrigo Oliveira propõe uma reflexão: talvez a verdadeira sofisticação não esteja em transformar tudo em “gourmet”, mas em reconhecer o valor que já existe nos ingredientes, nas receitas familiares e nos conhecimentos transmitidos entre gerações.

Fontes: declarações de Rodrigo Oliveira ao GQuiz, da GQ Brasil; histórico do restaurante Mocotó; Folha de S.Paulo.

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