Pesquisa da Sociedade Brasileira de Dermatologia revela que cerca de 90 milhões de brasileiros nunca passaram por uma consulta especializada. Entre os idosos, 46% também nunca procuraram o profissional.
A pele é o maior órgão do corpo humano, responsável por proteger o organismo contra agentes externos, regular a temperatura corporal e atuar na defesa contra infecções. Apesar de sua importância, milhões de brasileiros ainda deixam os cuidados dermatológicos em segundo plano, muitas vezes por desconhecimento, dificuldades de acesso ou pela ideia equivocada de que procurar um dermatologista é uma questão exclusivamente estética.
Um levantamento da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), realizado em parceria com o Instituto Datafolha e a L’Oréal Brasil, revelou um cenário preocupante: 54% dos brasileiros com 16 anos ou mais nunca consultaram um dermatologista.
O percentual representa aproximadamente 90 milhões de pessoas que nunca passaram por uma avaliação especializada da saúde da pele.
Entre a população com mais de 60 anos, 46% afirmaram nunca ter procurado esse atendimento. Já entre os jovens de 16 a 24 anos, o índice chega a 70%.
Os resultados, divulgados em julho de 2025, reforçam a necessidade de ampliar a conscientização sobre a importância da prevenção e do diagnóstico precoce de doenças dermatológicas.
Dermatologista não cuida apenas da aparência
Uma das principais barreiras para o acompanhamento dermatológico é a percepção de que esse profissional atua somente com procedimentos estéticos, tratamentos de rejuvenescimento e cuidados com a aparência.
Na realidade, a dermatologia é uma especialidade médica responsável pelo diagnóstico, tratamento e prevenção de doenças que atingem a pele, os cabelos, as unhas e as mucosas.
Entre os problemas que podem ser identificados durante uma consulta estão dermatites, psoríase, infecções, micoses, alterações pigmentares e diferentes tipos de câncer de pele.
Algumas dessas doenças começam com manifestações discretas, como pequenas manchas, descamações, coceiras persistentes ou feridas aparentemente simples.
O perigo está justamente em ignorar esses sinais, permitindo que determinadas condições avancem sem diagnóstico e tratamento adequados.
Câncer de pele exige atenção especial
O câncer de pele está entre as principais preocupações dos dermatologistas brasileiros.
Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o câncer de pele não melanoma é o tipo de câncer mais frequente no Brasil. Embora geralmente apresente elevada possibilidade de tratamento quando identificado precocemente, alguns casos podem provocar danos importantes aos tecidos.
O melanoma, menos frequente, merece atenção especial por seu maior potencial de disseminação para outros órgãos.
Entre os sinais que exigem avaliação médica estão pintas que mudam de tamanho, formato ou coloração, lesões que sangram espontaneamente e feridas que não cicatrizam.
O diagnóstico precoce pode fazer uma diferença decisiva no tratamento, reduzindo o risco de complicações.
Idosos e jovens também precisam de acompanhamento
Os dados da pesquisa chamam atenção para dois grupos com necessidades específicas.
Entre os idosos, o envelhecimento natural da pele e o acúmulo de exposição solar ao longo da vida aumentam a importância da observação de lesões suspeitas. Alterações que parecem normais da idade podem, em alguns casos, exigir investigação médica.
Já entre os jovens, o baixo índice de consultas evidencia a necessidade de fortalecer a educação sobre proteção solar e saúde dermatológica desde cedo.
A exposição excessiva à radiação ultravioleta, especialmente quando provoca queimaduras solares, é um fator de risco conhecido para o desenvolvimento de câncer de pele.
Por isso, a prevenção deve começar na infância e continuar ao longo da vida.
Falta de acesso também faz parte do problema
Embora a informação seja essencial, os resultados não podem ser interpretados apenas como falta de interesse da população.
A dificuldade de conseguir consultas, os custos do atendimento particular e a distribuição desigual de especialistas também podem contribuir para que brasileiros permaneçam anos sem acompanhamento dermatológico.
Para muitas famílias, a procura pelo médico acontece somente quando uma alteração na pele provoca dor, desconforto ou prejuízo à rotina.
Essa realidade reforça a importância de ampliar o acesso à dermatologia e de integrar os cuidados com a pele às ações de atenção básica em saúde.
Como identificar sinais de alerta na pele?
Uma das orientações utilizadas na identificação de pintas suspeitas é a regra do ABCDE, que ajuda a reconhecer alterações que merecem investigação.
- A — Assimetria: uma metade da pinta apresenta formato diferente da outra.
- B — Bordas: contornos irregulares ou pouco definidos.
- C — Cor: presença de diferentes tonalidades na mesma lesão.
- D — Diâmetro: pintas maiores que 6 milímetros merecem atenção, embora lesões menores também possam ser suspeitas.
- E — Evolução: mudanças de tamanho, cor, formato ou sintomas ao longo do tempo.
Esses critérios não substituem o diagnóstico médico. Qualquer lesão nova, persistente ou em transformação deve ser avaliada por um profissional.
Pequenos hábitos podem proteger a saúde da pele
A prevenção envolve atitudes simples que podem ser incorporadas ao cotidiano.
O uso adequado de protetor solar, preferencialmente com FPS 30 ou superior, a utilização de chapéus e roupas protetoras, a busca por sombra e a redução da exposição direta ao sol nos horários de maior intensidade da radiação ultravioleta são medidas importantes.
Também é recomendável observar periodicamente a própria pele, inclusive regiões pouco visíveis, como costas, couro cabeludo e plantas dos pés.
A frequência das consultas dermatológicas deve ser individualizada, considerando fatores como histórico pessoal ou familiar de câncer de pele, exposição solar e presença de lesões suspeitas.
Cuidar da pele é uma questão de saúde, não de vaidade
Os números apresentados pela Sociedade Brasileira de Dermatologia revelam um desafio que vai além dos consultórios: mudar a forma como os brasileiros enxergam a saúde da pele.
Assim como o coração, os pulmões e outros órgãos recebem atenção preventiva, a pele também precisa ser observada e cuidada.
O hábito de procurar assistência apenas quando surge um problema pode atrasar diagnósticos importantes.
A principal mensagem é que cuidar da pele não significa buscar padrões de beleza, mas preservar a saúde, prevenir doenças e garantir qualidade de vida.
Afinal, a pele protege o corpo todos os dias. Mas será que estamos dando a ela a atenção que merece?



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