Empresária começou com o dinheiro da rescisão, enfrentou uma dívida milionária para mudar a marca e hoje comanda uma rede com 400 unidades no Brasil e duas nos Estados Unidos.
Antes de construir uma das grandes redes de confeitaria do país, Cleusa Maria da Silva trabalhou na lavoura, cuidou dos irmãos mais novos e foi arrumadeira em São Paulo. Sua trajetória no empreendedorismo começou em 1997, quando usou o dinheiro da rescisão de um emprego para abrir uma pequena loja de doces, com apenas 20 metros quadrados.
Quase três décadas depois, aos 60 anos, a empresária está à frente da Sodiê Doces. A rede encerrou 2025 com faturamento de R$ 800 milhões, crescimento de 8,1% em relação ao ano anterior. São 400 unidades no Brasil e duas em Orlando, nos Estados Unidos, com produção de 700 toneladas de bolo por mês, segundo perfil publicado pela Forbes Brasil. forbes.com.br
Os números ajudam a dimensionar o negócio. Mas, por trás deles, existe uma história marcada por responsabilidades precoces, trabalho intenso e decisões que colocaram a própria fundadora sob pressão financeira.
Uma infância de responsabilidades
Terceira filha de uma família de dez irmãos, Cleusa assumiu tarefas que começaram muito antes da vida adulta. Aos 9 anos, cuidava dos menores. Aos 13, já capinava soja e cortava cana-de-açúcar.
Mais tarde, trabalhou como arrumadeira em São Paulo. A passagem pelo emprego doméstico antecedeu a entrada no setor de doces, que acabaria mudando seu caminho profissional.
A abertura da primeira loja, em 1997, representou uma aposta feita com os recursos disponíveis: o dinheiro recebido ao deixar um emprego. O espaço era pequeno, mas a dedicação consumia seus dias.
“Não descansei um único dia durante cinco anos. Meu objetivo era muito maior do que meu trabalho”, relembrou a empresária.
O relato mostra o esforço envolvido na construção da empresa, sem apagar o desgaste de uma rotina prolongada de trabalho.
A mudança de nome que custou milhões
A marca nasceu como Sensações Doces e passou a operar no modelo de franquias em 2006. A expansão, porém, trouxe um dos momentos mais delicados da trajetória de Cleusa.
Quando o negócio já tinha 74 unidades, a Nestlé contestou o registro da marca no Instituto Nacional da Propriedade Industrial, o INPI, por semelhança com o nome do chocolate Sensação.
“Bateu o desespero. Fiquei quatro meses sem dormir”, contou.
A solução veio de dentro da própria família: Sodiê reúne partes dos nomes dos filhos da empresária, Sofia e Diego.
A troca exigia mudanças nas unidades e nos materiais da rede. Para evitar que os franqueados arcassem com essas despesas, Cleusa assumiu uma dívida superior a R$ 3 milhões.
A decisão a manteve quase quatro anos no vermelho, mas permitiu reorganizar a identidade do negócio e seguir com a expansão.
Dos bolos aos salgados e ao mercado internacional
Depois da mudança, a rede retomou o crescimento e ampliou sua atuação. Em 2017, foi aberta a fábrica Sodiê Salgados. Dois anos depois, em 2019, a marca inaugurou sua primeira unidade fora do Brasil, em Orlando.
O faturamento de R$ 800 milhões registrado em 2025 corresponde ao resultado comercial da rede, e não ao patrimônio pessoal de Cleusa ou ao lucro do negócio.
Essa distinção ajuda a compreender a dimensão da empresa sem confundir o volume de vendas com a riqueza individual de sua fundadora.
Tendências de consumo entram no cardápio
A Sodiê também acompanha mudanças no comportamento dos consumidores e produtos que ganham repercussão nas redes sociais.
Entre as apostas estão o bolo inspirado no morango do amor e opções zero açúcar e com proteína. A estratégia aproxima a marca de novas demandas e mantém o desenvolvimento de produtos dentro de um negócio que começou em uma pequena loja.
O objetivo é manter a empresa por gerações
Apesar da escala alcançada, Cleusa afirma que sua ambição não é se tornar bilionária. Seu foco está na continuidade da marca.
“O que eu desejo de verdade é que a Sodiê, daqui a 10, 20, 30 anos, ainda seja o que é hoje”, declarou.
A fala coloca a permanência da empresa no centro de seus planos: preservar o negócio construído ao longo de décadas e garantir que ele continue relevante para os próximos anos.
A trajetória da empresária integra a seleção The Founders 2026, da Forbes Brasil, apresentada pelo SoftBank Latin America Fund. forbes.com.br



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