Paulo Peregrino passou por 45 sessões de quimioterapia e transplante de medula antes de receber tratamento experimental que reprograma células de defesa para atacar o tumor
Depois de uma trajetória marcada por internações, 45 sessões de quimioterapia, transplante de medula óssea e sucessivas recidivas, o publicitário e escritor Paulo Peregrino alcançou a remissão completa de um linfoma não-Hodgkin após receber uma terapia celular produzida no Brasil.
O tratamento, conhecido como CAR-T Cell, utiliza células de defesa do próprio paciente, modificadas geneticamente em laboratório para reconhecer e combater células cancerígenas. No caso de Paulo, os exames realizados semanas após a infusão deixaram de detectar os tumores que estavam espalhados pelo corpo.
A história ganhou novamente repercussão após a divulgação, em junho de 2026, de resultados preliminares de um estudo clínico brasileiro. A pesquisa apontou resposta positiva em 87,5% dos pacientes com linfoma não-Hodgkin avaliados — índice equivalente a quase nove em cada dez participantes.
Uma luta iniciada em 2010
A trajetória de Paulo contra o câncer começou em 2010, quando ele foi diagnosticado com um tumor na próstata. Anos depois, enfrentou episódios de linfoma não-Hodgkin.
Ao longo desse período, o publicitário passou por diferentes linhas de tratamento. Foram 45 sessões de quimioterapia, diversas internações e um transplante autólogo de medula óssea, procedimento no qual células-tronco do próprio paciente são coletadas e reinfundidas depois da administração de quimioterapia em altas doses.
Apesar das intervenções, a doença voltou. Em 2023, Paulo estava com um linfoma agressivo e disseminado pelo organismo, sem resposta satisfatória às terapias convencionais.
Ele foi, então, selecionado para receber experimentalmente a CAR-T Cell pelo Sistema Único de Saúde, em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo.
Tumores desapareceram após uma única infusão
O tratamento foi conduzido por equipes do Hemocentro de Ribeirão Preto, do Centro de Terapia Celular da Universidade de São Paulo e do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, em parceria com o Instituto Butantan.
Após a coleta, os linfócitos T de Paulo foram modificados em laboratório e receberam um receptor artificial capaz de reconhecer o antígeno CD19, uma proteína encontrada em determinados cânceres das células B.
As células foram multiplicadas e devolvidas ao organismo em uma única infusão. Semanas depois, os exames indicaram remissão completa, ou seja, não havia mais evidência detectável do câncer.
Algumas publicações contabilizam 48 dias entre o começo do processo terapêutico e a confirmação do resultado. O Hemocentro informou, em maio de 2023, que Paulo estava entre 14 pacientes tratados experimentalmente e que todos apresentaram redução de pelo menos 60% dos tumores naquele grupo inicial.
Como funciona a CAR-T Cell
A terapia CAR-T transforma os linfócitos T em uma espécie de sistema de defesa direcionado contra o câncer. O processo ocorre em etapas:
- Os linfócitos T são retirados do sangue do paciente;
- As células recebem, em laboratório, uma modificação genética;
- O novo receptor permite identificar determinada proteína do tumor;
- As células modificadas são multiplicadas;
- O material é reinfundido no paciente;
- Os linfócitos passam a localizar e destruir as células cancerígenas.
A tecnologia CAR-T não foi inventada no Brasil e já é utilizada internacionalmente. O avanço brasileiro está no desenvolvimento e na fabricação nacional do produto, com participação de instituições públicas e perspectiva de futura incorporação ao SUS.
O que significa o índice de 87,5%
Os dados divulgados em junho de 2026 estão relacionados ao estudo clínico CARTHEDRALL, iniciado em 2024 para avaliar a segurança e a eficácia da terapia brasileira em pacientes com leucemia linfoide aguda de células B e linfoma não-Hodgkin de células B.
Entre os pacientes com linfoma avaliados, 87,5% apresentaram resposta positiva após 90 dias. O percentual reúne tanto pessoas com remissão completa quanto pacientes que tiveram redução significativa do tumor.
Por isso, a afirmação de que “nove em cada dez tiveram o câncer completamente eliminado” não é tecnicamente correta. O resultado significa que quase nove em cada dez responderam ao tratamento, de maneira total ou parcial.
O estudo foi estruturado para tratar 81 pacientes em cinco hospitais paulistas. A meta é reunir evidências para solicitar o registro do produto nacional e ampliar, futuramente, o acesso pelo SUS.
Terapia exige acompanhamento especializado
Apesar dos resultados promissores, a CAR-T não é indicada para qualquer câncer. O produto brasileiro tem como alvo o CD19 e está sendo estudado para determinados casos de leucemia e linfoma de células B, principalmente quando a doença reaparece ou não responde à quimioterapia e ao transplante.
O tratamento também pode causar efeitos adversos graves, como síndrome de liberação de citocinas, alterações neurológicas, infecções e redução das células sanguíneas. Por esse motivo, sua aplicação precisa ser realizada em centros especializados, com acompanhamento médico e estrutura hospitalar.
A Anvisa esclareceu que o procedimento recebido por Paulo em 2023 foi realizado de forma experimental. A terapia nacional ainda passa pelas etapas necessárias de avaliação científica e regulatória.
O caso representa uma das histórias mais emblemáticas da pesquisa brasileira em terapias avançadas. Para Paulo, a ciência conseguiu mudar o desfecho de uma luta que atravessou mais de uma década. Para os pesquisadores, os resultados abrem caminho para que um tratamento complexo e atualmente muito caro possa, no futuro, chegar a mais brasileiros.
Fontes: Fundação Hemocentro de Ribeirão Preto, Anvisa, Revista piauí e Veja Saúde.



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