Combinação da substância presente no Mounjaro com medicamento biológico aumentou a proporção de pacientes que ficaram sem lesões aparentes; resultado não significa que a caneta esteja aprovada isoladamente contra a doença
Um estudo clínico publicado na revista científica JAMA Dermatology apontou resultados promissores para uma estratégia que combina tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, com ixekizumabe no tratamento de adultos com psoríase em placas moderada a grave e sobrepeso ou obesidade.
Após 36 semanas, 40,6% dos participantes que receberam os dois medicamentos alcançaram o chamado PASI 100, indicador que representa o desaparecimento completo das lesões avaliadas pelo índice de área e gravidade da psoríase. Entre aqueles tratados somente com ixekizumabe, o percentual foi de 29%.
A diferença foi de 11,6 pontos percentuais e atingiu significância estatística, embora o intervalo de confiança tenha ficado próximo do limite: 0,3 a 22,9 pontos percentuais.
Estudo reuniu 274 pacientes
Batizado de TOGETHER-PsO, o ensaio clínico de fase 3b foi randomizado e aberto, isto é, participantes e pesquisadores sabiam quais medicamentos estavam sendo administrados.
A pesquisa incluiu 274 adultos atendidos em 72 centros dos Estados Unidos. Todos apresentavam psoríase em placas moderada a grave, além de obesidade ou sobrepeso acompanhado de pelo menos uma condição relacionada ao peso.
Os participantes tinham idade média de 45,6 anos, IMC médio de 39,2 e conviviam com a psoríase havia, em média, 14,6 anos. Do total, 231 pessoas, o equivalente a 84,3%, permaneceram no tratamento até a 36ª semana.
Os voluntários foram divididos aleatoriamente em dois grupos:
- Ixekizumabe associado à tirzepatida;
- Ixekizumabe sem tirzepatida.
Os dois grupos também receberam orientação para dieta e prática de exercícios.
Controle da pele e redução de peso
O principal objetivo do estudo não era analisar apenas a melhora da pele. Os pesquisadores avaliaram quantas pessoas conseguiram, simultaneamente, atingir o PASI 100 e reduzir pelo menos 10% do peso corporal.
Esse resultado combinado foi alcançado por 27,1% dos participantes tratados com ixekizumabe e tirzepatida, contra 5,8% entre os que utilizaram somente ixekizumabe. A diferença foi de 21,2 pontos percentuais.
Outros resultados também favoreceram a combinação:
- PASI 100: 40,6% contra 29%;
- PASI 75 e perda mínima de 5% do peso: 79,9% contra 17,9%;
- Redução de pelo menos 10% do peso: 69,2% contra 9,1%.
O PASI 75 representa uma redução de pelo menos 75% na gravidade e na extensão das lesões em comparação com o início do tratamento.
Qual é o papel de cada medicamento?
O ixekizumabe é um medicamento biológico que bloqueia a interleucina-17A, proteína envolvida no processo inflamatório da psoríase. Ele já é utilizado especificamente no tratamento da doença.
A tirzepatida atua sobre os receptores dos hormônios GIP e GLP-1. A substância ajuda a controlar o apetite, a ingestão calórica, a glicemia e o peso corporal.
A hipótese estudada é que o controle simultâneo da obesidade e da psoríase possa melhorar a resposta global ao tratamento. Segundo o artigo, entre 60% e 78% das pessoas com psoríase apresentam sobrepeso ou obesidade.
O excesso de tecido adiposo está relacionado à inflamação crônica de baixo grau. Além disso, pacientes com IMC elevado podem apresentar psoríase mais grave, menor resposta aos medicamentos biológicos e maior risco de outras complicações, como artrite psoriásica e doenças cardiovasculares.
Resultado não comprova que Mounjaro trate psoríase sozinho
Apesar da repercussão, o estudo não avaliou a tirzepatida isoladamente contra a psoríase. Todos os participantes receberam ixekizumabe, medicamento já direcionado à doença. Portanto, a conclusão correta é que a adição da tirzepatida apresentou benefício em um grupo específico de pacientes.
Também não é possível afirmar que o resultado se aplica a pessoas com peso considerado normal, quadros leves de psoríase ou pacientes que utilizam outros medicamentos biológicos.
No Brasil, a Anvisa autoriza o Mounjaro para diabetes tipo 2 e para controle crônico do peso em adultos que atendam aos critérios estabelecidos. A psoríase não aparece como indicação aprovada para a tirzepatida. O eventual uso com essa finalidade seria fora da bula e dependeria de decisão médica individualizada.
Segurança e limitações
Os eventos adversos observados foram, em geral, compatíveis com os perfis já conhecidos dos dois medicamentos. Problemas gastrointestinais foram mais frequentes entre os pacientes que receberam tirzepatida, enquanto reações no local da aplicação também estiveram entre as ocorrências mais comuns.
Três participantes do grupo da combinação interromperam o tratamento em razão de eventos adversos: fascite necrosante, infecção na pele das axilas e dor torácica não cardíaca. O artigo informou que não foram identificados novos sinais gerais de segurança, mas o acompanhamento dos riscos continua necessário.
Entre as limitações estão o caráter aberto da pesquisa, a realização exclusiva nos Estados Unidos e a apresentação dos resultados principais na 36ª semana, embora o protocolo completo tenha duração prevista de 52 semanas.
O estudo foi patrocinado pela Eli Lilly, fabricante dos dois medicamentos avaliados, e parte dos autores declarou vínculo profissional com a empresa. Isso não invalida os dados, mas representa uma informação relevante para a análise independente dos resultados.
Anvisa alerta contra uso indiscriminado
Em agosto de 2026, a Anvisa reforçou o alerta sobre o risco de pancreatite aguda associado ao uso indevido de medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1, incluindo a tirzepatida. A agência afirma que essas substâncias devem ser utilizadas somente dentro das indicações aprovadas e com prescrição e acompanhamento profissional.
No Brasil, a venda desses medicamentos exige retenção da receita. A medida procura reduzir a automedicação e o uso indiscriminado das chamadas “canetas emagrecedoras”.
Os resultados do TOGETHER-PsO abrem uma nova linha de investigação sobre o tratamento conjunto da psoríase e da obesidade, mas ainda não transformam o Mounjaro em medicamento aprovado para psoríase. Estudos adicionais, acompanhamento por períodos mais longos e avaliações independentes serão necessários antes de qualquer mudança na prática clínica.
Fontes: JAMA Dermatology — estudo TOGETHER-PsO; ClinicalTrials.gov — NCT06588283; Anvisa — indicação do Mounjaro para controle do peso; Anvisa — alerta sobre pancreatite aguda


0 Comentários