Com mais de 800 quilômetros de fronteira seca, Mato Grosso do Sul enfrenta o desafio de impedir a entrada de insumos ilegais e falsificados que podem provocar prejuízos milionários ao agronegócio e comprometer a segurança da produção agrícola.
O avanço do contrabando e da falsificação de agrotóxicos e outros insumos agropecuários acendeu um alerta em Mato Grosso do Sul. Produtos clandestinos, muitas vezes comercializados em embalagens semelhantes às originais e acompanhados de documentos aparentemente regulares, representam uma ameaça silenciosa à produtividade das lavouras, à saúde pública e ao meio ambiente.
Para fortalecer o enfrentamento dessas irregularidades, representantes de órgãos públicos, forças policiais e entidades do setor privado participam, em Campo Grande, do Seminário de Capacitação para Fiscalização Integrada de Insumos Agropecuários. O encontro começou na segunda-feira (19) e segue até sexta-feira (23 de outubro).
A iniciativa é promovida pela Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal (Iagro), em parceria com o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), a Polícia Rodoviária Federal (PRF), a CropLife Brasil, a Associação Nacional dos Distribuidores de Insumos Agrícolas e Veterinários (Andav) e o Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias (inpEV).
O objetivo é aprimorar a identificação de produtos ilegais, fortalecer as operações integradas e ampliar a capacidade de fiscalização nas rodovias e nas cadeias de comercialização de insumos agropecuários.
Fronteira extensa facilita a atuação de redes ilegais
A posição geográfica de Mato Grosso do Sul é um dos principais desafios para as autoridades. O Estado possui mais de 800 quilômetros de fronteira seca, característica que exige vigilância permanente e integração entre os órgãos responsáveis pelo controle da circulação de mercadorias.
Durante a abertura do seminário, o secretário-adjunto da Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc), Alex Melotto, destacou que o combate ao contrabando depende de uma atuação coordenada.
Segundo ele, o desenvolvimento da agropecuária sul-mato-grossense resulta de investimentos expressivos e do trabalho dos produtores, patrimônio econômico que pode ser colocado em risco pela utilização de produtos clandestinos.
“Essa é uma demonstração da nossa força, especialmente da nossa cooperação. Mato Grosso do Sul construiu uma base agropecuária importante, com investimentos e trabalho dos produtores rurais, e todo esse esforço pode ser colocado em risco pelo contrabando de insumos”, afirmou.
Melotto ressaltou que não basta identificar as irregularidades. É necessário reunir conhecimento técnico, inteligência e capacidade operacional para retirar os produtos ilegais de circulação e impedir sua distribuição.
Produtos falsificados podem comprometer safras inteiras
Um dos aspectos mais preocupantes do comércio clandestino é a dificuldade de identificar determinados produtos falsificados.
Em alguns casos, as embalagens reproduzem características dos fabricantes originais, enquanto os documentos fiscais podem transmitir uma falsa sensação de segurança ao comprador.
O problema se agrava quando o conteúdo comercializado não possui os ingredientes ativos declarados no rótulo ou apresenta composição diferente daquela autorizada pelos órgãos competentes.
Nessas circunstâncias, o produtor pode acreditar que está protegendo sua lavoura quando, na realidade, o tratamento aplicado não apresenta a eficácia esperada.
As consequências podem incluir aumento da infestação de pragas, perdas de produtividade, custos adicionais com novas aplicações e riscos de contaminação ambiental.
Citricultura de MS está entre os setores que exigem atenção
Durante o encontro, Alex Melotto utilizou a expansão da citricultura sul-mato-grossense para demonstrar os riscos que produtos falsificados podem representar para a defesa fitossanitária.
O setor depende de estratégias rigorosas de prevenção e controle de doenças, especialmente do greening, também conhecido como Huanglongbing (HLB), uma das enfermidades mais graves da citricultura mundial.
A doença é transmitida principalmente pelo inseto psilídeo, e seu controle exige medidas integradas de manejo e monitoramento.
Se um agricultor utiliza um inseticida falsificado, acreditando que está combatendo o vetor, pode deixar a plantação vulnerável à disseminação da doença.
“Se o produtor utiliza um produto falsificado acreditando que está controlando o psilídeo, mas o produto não tem eficácia, podemos comprometer todo o trabalho de prevenção ao greening”, alertou Melotto.
O exemplo evidencia que a falsificação de insumos não representa apenas uma fraude comercial. Dependendo do produto e das condições de uso, pode colocar em risco investimentos agrícolas e comprometer programas de defesa sanitária.
Produtor rural também pode ser vítima do crime
O diretor-presidente da Iagro, Daniel Ingold, chamou a atenção para outro aspecto da situação: nem sempre quem compra um produto irregular sabe que está adquirindo uma mercadoria falsificada.
Segundo ele, existem casos em que embalagens e documentos aparentemente legítimos escondem produtos sem os ingredientes ativos anunciados.
Isso significa que agricultores podem ser enganados, sofrer prejuízos financeiros e ainda enfrentar problemas sanitários decorrentes da utilização de insumos ineficazes.
“O produtor também é vítima. Ele compra um produto acreditando que está adquirindo um insumo legítimo, mas, na realidade, pode estar levando para a propriedade algo que não vai resolver o problema”, afirmou Ingold.
A preocupação das autoridades é assegurar que os produtos utilizados nas propriedades tenham origem comprovada, registro adequado e condições de uso compatíveis com as exigências legais.
Riscos ultrapassam os limites das propriedades rurais
O comércio irregular de agrotóxicos não afeta exclusivamente os agricultores.
Produtos de composição desconhecida, adulterados ou sem controle adequado podem oferecer riscos aos trabalhadores que realizam o transporte, o armazenamento e a aplicação.
A utilização inadequada dessas substâncias também pode resultar em contaminação do solo, da água e de organismos não alvo.
Além disso, a circulação de mercadorias clandestinas prejudica empresas que cumprem as exigências legais e sanitárias, criando condições desiguais de concorrência.
O enfrentamento dessas práticas envolve, portanto, questões econômicas, ambientais, sanitárias e de segurança pública.
Treinamento terá fiscalização prática em rodovias
A programação do seminário reúne atividades teóricas e práticas destinadas a aperfeiçoar o trabalho dos agentes envolvidos nas operações.
Entre os principais temas estão a identificação de agrotóxicos ilegais, o reconhecimento de sementes clandestinas, a análise de documentos fiscais e de transporte e a identificação de fraudes relacionadas às embalagens.
Os participantes também terão exercícios práticos de fiscalização em rodovias e atividades relacionadas ao controle do trânsito de animais.
A proposta é desenvolver procedimentos mais eficientes para reconhecer irregularidades, compartilhar informações e ampliar a integração entre as instituições responsáveis pela fiscalização.
A capacitação busca ainda reduzir falhas de identificação e fortalecer a atuação dos agentes diante de estratégias cada vez mais sofisticadas de falsificação e contrabando.
Como o produtor pode reduzir o risco de adquirir insumos falsificados?
A prevenção também depende de cuidados no momento da compra.
Especialistas em defesa agropecuária recomendam que os produtores adquiram insumos de fornecedores regularizados, exijam documentação fiscal, confiram a identificação do fabricante e verifiquem informações como número de registro, lote, validade e integridade da embalagem.
Ofertas com preços muito inferiores aos praticados no mercado, vendedores sem procedência comprovada e produtos sem informações claras devem despertar atenção.
No caso dos agrotóxicos, também é fundamental observar as exigências de receituário agronômico e utilizar exclusivamente produtos autorizados para a finalidade pretendida.
Diante de suspeitas de falsificação, a orientação é não utilizar o material até que sua procedência seja esclarecida e procurar os órgãos de fiscalização competentes.
Combate ao contrabando é também proteção ao futuro do agro
O fortalecimento da fiscalização ocorre em um momento em que Mato Grosso do Sul busca ampliar e diversificar sua produção agropecuária.
Nesse cenário, proteger a sanidade vegetal e assegurar a procedência dos insumos são condições importantes para preservar a competitividade e a sustentabilidade do setor.
A mensagem central do seminário é que nenhuma instituição consegue enfrentar isoladamente um problema que envolve fronteiras, logística, comércio, tecnologia e segurança.
A integração entre fiscalização, inteligência policial e conhecimento técnico pode ser decisiva para impedir que produtos ilegais cheguem às propriedades rurais.
Mais do que combater o contrabando, a iniciativa procura proteger o investimento de quem produz legalmente, a segurança de quem trabalha no campo e os recursos naturais que sustentam a atividade agropecuária.





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