Mobilização realizada em Campo Grande reforça a importância das consultas odontológicas e da identificação de feridas persistentes; diagnóstico nos estágios iniciais pode elevar significativamente as chances de cura.
A prevenção e o diagnóstico precoce do câncer de boca ganharam destaque nesta quarta-feira (4), em Campo Grande, durante a abertura da campanha Novembro Bordô, realizada na sede da Associação Brasileira de Odontologia de Mato Grosso do Sul (ABO-MS).
O encontro reuniu profissionais de saúde, representantes de instituições e estudantes de Odontologia em uma mobilização voltada à conscientização da população, à identificação dos primeiros sinais da doença e ao fortalecimento da rede de atendimento.
O alerta é importante porque o câncer de boca pode se desenvolver silenciosamente, sem provocar dor ou sintomas evidentes em suas fases iniciais. Essa característica contribui para que muitos pacientes procurem atendimento apenas quando a doença já está avançada.
Segundo os dados apresentados na mobilização, o câncer de boca ocupa a sétima posição entre os tipos de câncer mais frequentes no Brasil, atingindo principalmente homens acima dos 40 anos. Outro dado preocupante é que aproximadamente 80% dos diagnósticos ocorreriam em estágios avançados, quando o tratamento pode exigir procedimentos mais agressivos.
Esses indicadores reforçam a necessidade de ampliar o acesso às consultas odontológicas e estimular a população a observar alterações persistentes na cavidade bucal.
Doença silenciosa exige atenção redobrada
Diferentemente do que muitas pessoas imaginam, o câncer de boca nem sempre provoca dor, sangramento ou desconforto logo no início.
As alterações podem surgir na língua, gengivas, parte interna das bochechas, céu da boca e outras regiões da cavidade oral. O câncer de lábio, especialmente no lábio inferior, também merece atenção.
Entre os principais sinais de alerta estão:
- Feridas na boca ou nos lábios que não cicatrizam em até 15 dias.
- Manchas brancas ou avermelhadas persistentes.
- Caroços, nódulos ou áreas endurecidas.
- Sangramentos sem causa aparente.
- Ardência ou desconforto persistente.
- Dificuldade para mastigar, engolir ou movimentar a língua.
Em fases mais avançadas, também podem ocorrer alterações na fala, perda de peso sem explicação e aumento de gânglios no pescoço.
É importante destacar que nem toda ferida ou mancha representa câncer. Entretanto, qualquer alteração persistente precisa ser examinada por um profissional de saúde, especialmente quando não apresenta sinais de cicatrização.
Mato Grosso do Sul fortalece rede de diagnóstico desde 2023
A Secretaria de Estado de Saúde (SES) desenvolve, desde 2023, a Linha de Cuidado do Câncer de Boca, estratégia destinada a aprimorar a identificação precoce da doença e organizar o encaminhamento dos pacientes dentro da rede pública.
A iniciativa busca capacitar e sensibilizar os profissionais da Atenção Primária, permitindo que alterações suspeitas sejam identificadas durante atendimentos odontológicos de rotina.
O coordenador de Saúde Bucal da SES, Lucas Moura, explica que a ausência de sintomas pode dificultar a percepção do problema pelo próprio paciente.
“O câncer de boca é silencioso e muitas vezes não dói. Por isso, a atuação do profissional de saúde na detecção é importantíssima. A população deve procurar os serviços de saúde regularmente, não apenas quando sente dor ou percebe algum problema.”
A orientação é que os profissionais examinem toda a cavidade bucal, mesmo quando o paciente procura atendimento por outro motivo, como restaurações, limpeza ou extrações dentárias.
Esse cuidado permite identificar alterações que poderiam permanecer despercebidas durante meses.
Tecnologia ajuda dentistas a identificar lesões suspeitas
Uma das ferramentas utilizadas em Mato Grosso do Sul é o TeleEstomato/MS, serviço de apoio especializado aos profissionais da Atenção Primária.
Por meio da ferramenta, dentistas podem encaminhar fotografias e informações clínicas de lesões suspeitas para avaliação de especialistas.
Com a orientação recebida, o profissional consegue definir os próximos passos, incluindo acompanhamento, investigação complementar ou encaminhamento para atendimento especializado.
Quando necessário, o paciente é direcionado ao Centro de Especialidades Odontológicas (CEO), onde podem ser realizados exames e biópsias.
A biópsia, acompanhada da análise do tecido, é fundamental para confirmar ou descartar o diagnóstico de câncer.
Nos casos confirmados que exigem tratamento hospitalar, o paciente é encaminhado aos serviços especializados da rede de saúde.
A estratégia busca reduzir atrasos entre a identificação de uma lesão suspeita e a definição do tratamento adequado.
Diagnóstico precoce pode evitar cirurgias mutiladoras
O coordenador-geral de Saúde Bucal do Ministério da Saúde, Edson Lucena, destaca que os profissionais precisam atuar também na identificação de pessoas mais expostas aos fatores de risco.
Segundo ele, as avaliações da boca devem fazer parte das consultas odontológicas, independentemente do motivo que levou o paciente à unidade de saúde.
“Feridas ou caroços que não desaparecem em até 15 dias são sinais de alerta. Quando conseguimos identificar o problema ainda no início, a possibilidade de cura é muito maior e evitamos mutilações que comprometem a vida dessas pessoas.”
Quando o câncer de boca é descoberto tardiamente, o tratamento pode exigir cirurgias extensas, eventualmente associadas à radioterapia e à quimioterapia.
Dependendo da localização e da extensão do tumor, essas intervenções podem comprometer funções essenciais, como mastigação, deglutição e fala.
Além das consequências físicas, o tratamento pode provocar impactos emocionais, sociais e profissionais.
Por isso, a detecção precoce não representa apenas uma oportunidade de aumentar a sobrevivência, mas também de preservar a autonomia e a qualidade de vida dos pacientes.
Chances de cura podem superar 90% em casos iniciais
A presidente do Conselho Regional de Odontologia de Mato Grosso do Sul (CRO-MS), Silvânia Silvestre, ressalta que o enfrentamento da doença exige a participação conjunta de profissionais, universidades, instituições de saúde e população.
Durante a mobilização, ela destacou o impacto positivo da identificação precoce.
“Quando conseguimos fazer o diagnóstico no início, temos mais de 90% de possibilidade de cura. É por isso que realizamos tantos trabalhos de orientação e prevenção.”
O percentual mencionado reforça a importância da descoberta da doença em seus estágios iniciais, embora o prognóstico individual dependa de fatores como localização, tipo de tumor, estágio clínico e condições gerais do paciente.
A presidente também destacou a necessidade de ampliar as ações educativas para que mais pessoas reconheçam os sinais suspeitos e procurem atendimento antes do agravamento da doença.
Tabaco, álcool e exposição solar estão entre os fatores de risco
O desenvolvimento do câncer de boca está associado a diferentes fatores, incluindo hábitos de vida e exposições ambientais.
O tabagismo é um dos principais fatores de risco. O consumo frequente de bebidas alcoólicas também aumenta a probabilidade de desenvolvimento da doença, especialmente quando associado ao cigarro.
A exposição solar excessiva e sem proteção é particularmente relevante para o câncer de lábio.
Outro fator que merece atenção é a infecção persistente por determinados tipos do papilomavírus humano (HPV), especialmente em tumores da orofaringe, região que inclui as amígdalas e a base da língua.
A prevenção envolve abandonar o tabagismo, reduzir ou evitar o consumo de álcool, proteger os lábios da radiação solar e manter acompanhamento odontológico regular.
Também é importante compreender que pessoas sem fatores de risco conhecidos podem desenvolver a doença.
Quando procurar atendimento?
A orientação dos profissionais é não esperar o aparecimento de dor para buscar uma avaliação.
Feridas, manchas ou caroços que persistam por mais de 15 dias devem ser examinados, mesmo que não provoquem incômodo.
Em Campo Grande e nos demais municípios de Mato Grosso do Sul, a população pode procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou Unidade de Saúde da Família (USF) para avaliação inicial e orientação sobre o encaminhamento necessário.
As consultas odontológicas periódicas também desempenham papel importante na prevenção e na identificação de alterações.
A frequência deve ser individualizada conforme as necessidades de cada paciente, podendo incluir avaliações semestrais.
Novembro Bordô: informação também salva vidas
A campanha Novembro Bordô reforça que o enfrentamento do câncer de boca não depende exclusivamente de tratamentos especializados.
A informação, o reconhecimento dos sinais de alerta e o acesso oportuno aos serviços de saúde são fundamentais para reduzir as consequências da doença.
Em Mato Grosso do Sul, a mobilização também busca fortalecer a integração entre profissionais e instituições, ampliando a capacidade de identificação e acompanhamento dos pacientes.
A principal mensagem da campanha é simples: uma ferida que não cicatriza pode ser um sinal importante, mesmo quando não dói. Procurar atendimento no momento certo pode fazer a diferença entre um tratamento menos invasivo e uma intervenção complexa.




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