Crianças autistas apresentam alta frequência de hipersensibilidade sonora, mas especialistas alertam que mudanças repentinas na reação aos sons também podem estar relacionadas a problemas de saúde, como dor de ouvido, otite ou outros desconfortos físicos. Intestino e alimentação entram nessa discussão, mas a ciência exige cautela com promessas envolvendo glúten e dietas restritivas.
Uma criança tapa os ouvidos, começa a chorar diante de determinados sons, foge de ambientes barulhentos ou demonstra irritabilidade que parece surgir sem explicação.
Para famílias de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), essas situações podem fazer parte da rotina. A hipersensibilidade aos estímulos sensoriais, inclusive sons, é reconhecida entre as características que podem estar presentes no autismo.
Mas existe um ponto que merece atenção: nem toda mudança de comportamento diante do som deve ser automaticamente atribuída ao processamento sensorial do autismo.
Dor, infecções, alterações auditivas, problemas gastrointestinais e outros desconfortos físicos também podem modificar o comportamento de uma criança — principalmente quando ela tem dificuldade para identificar, localizar ou comunicar aquilo que está sentindo.
Hipersensibilidade sonora é frequente no autismo
Uma meta-análise publicada na revista Ear and Hearing, envolvendo estudos com milhares de pessoas autistas, estimou prevalência atual de hiperacusia em aproximadamente 41% e prevalência ao longo da vida próxima de 61% quando consideradas avaliações por entrevistas e questionários.
Hiperacusia é a redução da tolerância a sons que, para outras pessoas, seriam considerados de intensidade normal.
Além disso, os critérios diagnósticos atuais do TEA reconhecem hiper ou hiporreatividade aos estímulos sensoriais, incluindo reações adversas a sons específicos.
Isso significa que a sensibilidade auditiva pode, sim, fazer parte do perfil sensorial de uma pessoa autista.
O problema aparece quando toda reação ao som é automaticamente classificada como sensorial sem investigar outras possibilidades.
E se a criança estiver sentindo dor?
Imagine uma criança que normalmente tolerava determinados ambientes e, de repente, passa a tapar os ouvidos, chorar, ficar irritada, dormir mal ou evitar atividades.
Antes de concluir que houve simplesmente uma piora da sensibilidade sensorial, condições clínicas precisam ser consideradas.
Uma delas é a otite.
Estudo publicado no Journal of Autism and Developmental Disorders identificou taxas significativamente maiores de otite média aguda, otite com efusão e outras complicações relacionadas ao ouvido entre crianças com TEA.
Os próprios pesquisadores chamam atenção para uma dificuldade adicional: sintomas de otite podem passar despercebidos quando a criança apresenta dificuldades de comunicação.
Dor de ouvido pode causar irritabilidade, dificuldade para dormir e mudanças comportamentais. Alterações do ouvido médio também podem afetar a audição.
Por isso, mudanças novas ou intensas na tolerância sonora justificam avaliação clínica, especialmente quando aparecem acompanhadas de febre, secreção, perda auditiva, dificuldade para dormir ou sinais de dor.
O intestino também merece atenção — mas sem exageros
Outro ponto verdadeiro que frequentemente acaba acompanhado de conclusões exageradas nas redes sociais é a relação entre autismo e sintomas gastrointestinais.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2022 estimou que cerca de 48,7% das pessoas com TEA apresentavam sintomas gastrointestinais.
Outra meta-análise focada em crianças encontrou prevalência aproximada de 55% para pelo menos um sintoma gastrointestinal. Entre os problemas relatados estavam constipação, dor abdominal, diarreia, vômitos e distensão abdominal.
Portanto, afirmar que problemas gastrointestinais são relevantes na população autista tem respaldo científico.
Mais importante: uma criança nem sempre dirá “minha barriga está doendo”.
A Academia Americana de Pediatria destaca que pessoas autistas podem apresentar desconfortos gastrointestinais por meio de agitação, alterações do sono ou outros comportamentos, especialmente quando existem diferenças na comunicação ou percepção da dor.
Isso reforça a necessidade de investigar o organismo como um todo diante de mudanças comportamentais.
Mas intestino não significa automaticamente glúten
É justamente aqui que algumas publicações ultrapassam aquilo que a ciência consegue demonstrar.
Existe intensa pesquisa sobre microbiota, inflamação e o chamado eixo intestino-cérebro no TEA. Isso não significa, porém, que esteja comprovada uma sequência simples do tipo:
glúten → intestino inflamado → cérebro inflamado → hipersensibilidade auditiva.
Essa relação causal não está estabelecida para crianças autistas em geral.
Também não há evidência clínica robusta de que retirar glúten e caseína melhore os sintomas do autismo em “até 80%” das crianças.
Uma revisão sistemática de seis ensaios clínicos randomizados, envolvendo 214 participantes, encontrou, com poucas exceções, ausência de diferenças estatisticamente significativas nas características centrais do TEA entre crianças submetidas à dieta sem glúten/caseína e os grupos de comparação.
Outra revisão de nove ensaios clínicos, com 521 participantes, encontrou resultados mistos e concluiu que os dados continuavam insuficientes para recomendar essa dieta como tratamento dos sintomas do TEA.
Um pequeno estudo duplo-cego também não encontrou efeitos estatisticamente significativos sobre comportamento ou sintomas do autismo após desafios alimentares envolvendo glúten e caseína.
Dieta sem glúten não é tratamento para autismo
O NICE, órgão britânico responsável por diretrizes clínicas baseadas em evidências, recomenda explicitamente que dietas de exclusão, incluindo dietas sem glúten ou caseína, não sejam utilizadas para tratar as características centrais do autismo em crianças e adolescentes.
Isso não significa que nenhuma criança autista possa precisar retirar determinados alimentos.
Uma criança com doença celíaca, alergia alimentar ou outra condição clínica diagnosticada pode necessitar de restrições alimentares específicas, assim como qualquer outra criança.
Nesses casos, o tratamento é direcionado à condição existente — não ao autismo.
Dietas restritivas sem acompanhamento também merecem atenção porque crianças autistas podem apresentar seletividade alimentar. A retirada desnecessária de grupos alimentares pode aumentar o risco de inadequação nutricional.
E o trigo?
Também é necessário separar trigo de glúten.
Glúten é um conjunto de proteínas encontrado no trigo, cevada e centeio e desempenha papel central na doença celíaca. Para pessoas com doença celíaca, retirar o glúten é tratamento médico.
Isso não permite concluir que o trigo seja responsável pela hipersensibilidade auditiva das crianças autistas em geral.
Relatos clínicos isolados de melhora de zumbido ou outros sintomas após retirada do glúten podem gerar hipóteses para pesquisa, mas não demonstram que o mesmo efeito ocorrerá na população autista.
Cobre e zinco: outro ponto que exige cautela
Também existem estudos identificando diferenças nos níveis de zinco e cobre entre grupos de pessoas autistas e controles.
Entretanto, associação estatística não significa que deficiência de zinco ou excesso de cobre seja uma causa comprovada do autismo ou da sensibilidade auditiva.
Muito menos significa que suplementar esses minerais sem avaliação médica seja tratamento para o TEA.
A pergunta correta pode mudar a investigação
Quando uma criança autista passa a demonstrar maior aversão ao som, a pergunta não precisa ser apenas:
“Qual estímulo sensorial está incomodando?”
Também pode ser:
“Existe alguma coisa doendo?”
Ouvido, dentes, garganta, refluxo, constipação, dor abdominal, sono inadequado e outras condições clínicas podem repercutir no comportamento.
As próprias diretrizes do NICE recomendam considerar problemas físicos coexistentes, incluindo dor e distúrbios gastrointestinais, quando uma criança autista apresenta comportamentos desafiadores ou mudanças comportamentais.
Investigar causas clínicas não invalida a hipersensibilidade sensorial característica do TEA. São possibilidades que podem coexistir.
A mensagem principal, portanto, não é eliminar trigo, leite ou qualquer outro alimento indiscriminadamente.
É evitar que uma alteração comportamental seja automaticamente atribuída ao autismo quando a criança pode estar tentando comunicar desconforto, dor ou doença.
Sensibilidade auditiva existe no autismo. Dor também existe. E uma não deve impedir a investigação da outra.
Fontes consultadas: Centers for Disease Control and Prevention (CDC); National Institute for Health and Care Excellence (NICE); American Academy of Pediatrics; Ear and Hearing; Journal of Autism and Developmental Disorders; PubMed e revisões sistemáticas sobre sintomas gastrointestinais e intervenções dietéticas no TEA.


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