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Após 10 anos com Alzheimer, idosa volta a falar e caminhar depois de uso experimental de psilocibina

por admin | jul 29, 2026 | Geral

Paciente na faixa dos 80 anos apresentava comprometimento grave havia cerca de cinco anos; melhora inesperada ocorreu aproximadamente 19 horas após administração de cogumelos contendo psilocibina. Caso chama atenção da ciência, mas não comprova tratamento nem cura para Alzheimer.

Um relato científico publicado em maio de 2026 colocou uma das substâncias psicodélicas mais estudadas atualmente no centro de uma questão intrigante: até que ponto funções aparentemente perdidas em estágios avançados da doença de Alzheimer podem permanecer, de alguma forma, acessíveis no cérebro?

Pesquisadores brasileiros descreveram o caso de uma mulher nipo-americana na faixa dos 80 anos, diagnosticada com Alzheimer havia aproximadamente uma década e com comprometimento funcional grave nos últimos cinco anos.

Antes da intervenção, a paciente apresentava fala predominantemente monossilábica, dificuldade de mobilidade, incontinência urinária crônica, disfagia, baixa expressão afetiva, comprometimento executivo e grande dependência para atividades cotidianas.

O que ocorreu depois chamou a atenção dos autores.

Mudança foi observada cerca de 19 horas depois

Segundo o relato publicado na revista científica Frontiers in Neuroscience, a paciente recebeu, sob acompanhamento, 5 gramas de cogumelos contendo psilocibina da variedade Enigma.

É importante fazer uma distinção: foram 5 gramas de cogumelos, e não 5 gramas de psilocibina pura.

A fase aguda envolveu efeitos relevantes, incluindo sudorese intensa, ativação autonômica, suspeita clínica de hipertermia e um período prolongado semelhante a sono profundo.

Aproximadamente 19 horas após a administração, porém, a paciente teria despertado espontaneamente e iniciado uma conversa autobiográfica que durou cerca de quatro horas.

Para uma mulher que anteriormente utilizava principalmente respostas de uma palavra, a mudança foi considerada extraordinária pelos autores.

Nos dias seguintes, foram relatadas outras alterações: maior interação com familiares, aumento do estado de alerta, recuperação da capacidade de caminhar de forma independente, maior iniciativa para atividades cotidianas e recuperação do controle urinário.

Também foram observados mais contato visual, sorrisos, comunicação espontânea e acesso a informações autobiográficas.

Algumas melhoras permaneceram por semanas

O episódio não teria terminado nas primeiras horas após o efeito da substância.

Segundo os pesquisadores, algumas das mudanças funcionais persistiram por semanas. Cerca de um mês depois, a paciente ainda apresentava continência urinária e condição funcional superior à observada antes da intervenção.

Posteriormente, houve uma segunda administração, dessa vez de 3 gramas de cogumelos, após a qual os autores descreveram novamente alterações em comunicação, expressão facial, humor e mobilidade.

O artigo, intitulado “Transient multidomain functional improvement in advanced Alzheimer’s disease following high-dose psilocybin-containing mushroom administration: a case report”, foi publicado em 28 de maio de 2026 na Frontiers in Neuroscience.

O trabalho é assinado por Marcos Lago, Mariana Cerveira e Joe Xavier Simonet, vinculados à Associação Cruz de Ankh, em São Paulo.

O cérebro teria recuperado funções perdidas?

Essa é uma das perguntas levantadas pelo caso, mas a ciência ainda não tem uma resposta.

A psilocibina é convertida no organismo em psilocina, substância que interage principalmente com receptores serotoninérgicos, especialmente o 5-HT2A. Estudos vêm investigando sua capacidade de alterar temporariamente padrões de conectividade cerebral e favorecer processos associados à neuroplasticidade.

Uma das hipóteses discutidas pelos autores é que determinadas funções poderiam não estar completamente destruídas mesmo em um quadro neurodegenerativo avançado. Algumas capacidades poderiam permanecer parcialmente preservadas, porém inacessíveis devido às alterações nas redes cerebrais provocadas pela doença.

Nesse cenário, uma forte modulação da atividade cerebral poderia, em tese, permitir acesso temporário a circuitos ou capacidades ainda existentes.

Mas isso permanece como hipótese.

O estudo não demonstrou que a psilocibina regenerou neurônios, reconstruiu conexões destruídas ou interrompeu a progressão do Alzheimer.

Caso isolado não significa cura

Apesar do impacto do relato, existe uma diferença enorme entre um caso surpreendente e um tratamento comprovado.

O trabalho descreve apenas uma paciente. Não houve grupo controle, randomização nem comparação com placebo, elementos fundamentais para determinar se uma intervenção realmente produz determinado resultado.

Os próprios autores alertam que as observações não devem ser interpretadas como evidência de reversão da doença de Alzheimer.

Também existem outras limitações. Parte da avaliação funcional foi baseada em observações clínicas e de cuidadores, e não é possível estabelecer, a partir de um único caso, exatamente qual mecanismo produziu as mudanças.

Além disso, a intervenção apresentou efeitos agudos importantes, o que reforça que o relato não deve ser entendido como incentivo ao uso doméstico ou sem supervisão de substâncias psicodélicas.

Alzheimer continua sem cura

A doença de Alzheimer é uma enfermidade neurodegenerativa progressiva e a principal causa de demência. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 57 milhões de pessoas viviam com demência no mundo em 2021, e aproximadamente 10 milhões de novos casos surgem a cada ano. O Alzheimer responde por cerca de 60% a 70% dos casos de demência.

O envelhecimento populacional torna o problema ainda maior. Estimativas internacionais indicam que o número de pessoas vivendo com demência poderá crescer significativamente nas próximas décadas.

Por isso, qualquer pista sobre mecanismos capazes de preservar cognição, linguagem ou autonomia desperta interesse científico.

Psicodélicos entram no radar da neurociência

Nas últimas décadas, a pesquisa com psilocibina ganhou novo impulso. A substância vem sendo estudada principalmente em áreas como depressão resistente, transtornos relacionados à ansiedade e outras condições psiquiátricas.

A aplicação em doenças neurodegenerativas, entretanto, permanece muito mais incipiente.

O caso relatado em 2026 não prova que psicodélicos possam tratar Alzheimer, mas levanta uma questão relevante para futuras pesquisas: em um cérebro profundamente afetado pela neurodegeneração, determinadas funções podem permanecer latentes e ser temporariamente reativadas?

Responder a essa pergunta exigirá estudos controlados, acompanhamento de mais pacientes, avaliações neuropsicológicas, exames de imagem e investigação dos mecanismos envolvidos.

Por enquanto, a história desta paciente representa uma observação científica rara e provocadora — não uma cura.

Fontes: Frontiers in Neuroscience, artigo publicado em 28 de maio de 2026, DOI 10.3389/fnins.2026.1813281; PubMed, PMID 42292331; Organização Mundial da Saúde (OMS); literatura científica sobre psilocibina, receptores 5-HT2A e neuroplasticidade.

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