Jasmine Cowell tinha apenas três anos quando a dependência da mãe em jogos de azar rompeu sua família. Aos 33, a influenciadora relata como o abandono, a violência e o medo de rejeição atravessaram sua infância e chegaram à vida adulta.
Três filhas, dois caminhos e uma escolha capaz de mudar uma família para sempre. Jasmine Cowell tinha apenas três anos quando o pai, tentando interromper os danos provocados pela dependência da esposa em jogos de azar, impôs um ultimato: ela deveria escolher entre o vício e as próprias filhas.
A mulher foi embora.
Três décadas depois, Jasmine ainda tenta compreender como uma mãe pôde deixar as três crianças para continuar jogando. O episódio, no entanto, não terminou com a separação. Tornou-se o início de uma história marcada por abandono, conflitos familiares, agressões, luto e profundas consequências emocionais.
“Criei uma relação muito frustrada, porque nunca consegui entender o fato de ela ter escolhido o jogo em vez de mim, das três filhas”, relatou a influenciadora.
Embora algumas pessoas tenham questionado a atitude do pai, Jasmine reconhece que o ultimato foi a maneira encontrada por ele para tentar proteger as meninas e a si mesmo em uma situação para a qual a família não estava preparada.
A esperança de que a mãe voltaria
Durante os primeiros anos após a separação, Jasmine ainda acreditava que a mãe retornaria e voltaria a participar da vida das filhas. Com o passar do tempo, a esperança deu lugar à frustração.
Segundo ela, a mãe fazia contatos esporádicos e telefonava principalmente para pedir dinheiro ao ex-marido. Isso teria continuado até a irmã mais nova completar 18 anos.
Jasmine preferiu rejeitar as tentativas de aproximação. Além de enfrentar a ausência materna, também precisou lidar com a revolta crescente do pai. Ela conta que as três irmãs herdaram traços físicos da mãe, de origem filipina, e que essa semelhança despertava conflitos no homem.
A rejeição teria se agravado até resultar em agressões físicas. Mais tarde, o pai passou por uma intervenção psiquiátrica para tratar seus próprios traumas.
“O tempo inteiro, tive que lidar com coisas que uma criança não precisaria lidar, que ninguém deveria ter que lidar”, desabafou Jasmine.
Mudança para o Brasil
Tentando manter as filhas distantes da mãe e deixar o passado para trás, o pai decidiu abandonar o Canadá e se mudar com as meninas para o Brasil, quando elas ainda eram adolescentes.
Jasmine acredita que ele desejava protegê-las de uma nova aproximação enquanto a mãe não estivesse totalmente recuperada. A mudança geográfica, entretanto, não apagou as feridas emocionais deixadas pela ruptura familiar.
Já adultas, duas das irmãs decidiram procurar a mãe para ouvir sua versão e compreender o que havia acontecido. Jasmine escolheu não participar.
Na época, ela chegou a sentir raiva das irmãs. Considerava aquela aproximação uma espécie de ingratidão diante de tudo o que o pai havia feito por elas. Mesmo assim, não tentou impedi-las, pois percebeu que aquele contato poderia ser necessário para o processo de cura de cada uma.
Morte do pai reabriu uma porta para o passado
Anos depois, durante uma viagem ao Canadá, o pai de Jasmine adoeceu gravemente e precisou ser colocado em coma induzido. Sem uma rede de apoio próxima, ela recorreu às redes sociais para pedir ajuda.
Apesar dos exames, a causa específica da doença não teria sido identificada. Após aproximadamente 30 dias de internação, ele morreu.
Quando Jasmine compartilhou a notícia, recebeu uma mensagem da mãe. A primeira reação foi de irritação. Ela imaginou que a mulher pudesse pedir dinheiro novamente, principalmente porque o ex-marido já não estava vivo para ajudá-la.
A mãe pediu uma conversa por chamada de voz, mas Jasmine recusou. Ainda não se sentia preparada para aquele encontro.
Seis meses depois, uma de suas irmãs contou que a mãe estava internada com câncer e poderia morrer a qualquer momento. Jasmine teve então a oportunidade de enviar uma última mensagem.
Ela pensou em falar sobre o abandono, a violência e todas as consequências que acreditava terem começado com a dependência materna. No entanto, escolheu outro caminho.
“Pedi para minha irmã dizer a ela que a perdoava, para que pudesse partir em paz. Não queria que ela fosse embora acreditando que a filha tinha raiva dela”, contou.
“Ela te dá um pouco para te roubar tudo”
Atualmente com 33 anos, Jasmine entende que a mãe não acordou simplesmente decidida a abandonar as filhas. Para ela, a ludopatia avançou gradativamente, até assumir o controle da vida familiar.
“Ninguém escolhe se viciar em algo, mas vai achando que não é nada e levando de forma tão natural que, quando vê, já está viciado”, afirmou.
A influenciadora compara o mecanismo das apostas ao de outras dependências. As recompensas imprevisíveis podem ativar o sistema cerebral associado à expectativa e ao prazer, estimulando a repetição do comportamento, mesmo diante das perdas.
“A máquina te deixa vencer para que pense que tem a possibilidade de ganhar outras vezes e, assim, continue jogando. Ela te dá um pouco para te roubar tudo”, resumiu.
Um problema que não atinge apenas quem aposta
A história da família evidencia que a dependência em jogos pode atingir filhos, companheiros e outras pessoas próximas. Endividamento, mentiras, afastamento, conflitos e rompimento dos vínculos estão entre as possíveis consequências.
O guia publicado pelo Ministério da Saúde em 2026 aponta que 25,9% dos brasileiros já jogaram ou apostaram alguma vez. Entre os jogadores avaliados, 4,4% apresentaram alto risco de envolvimento problemático.
O documento também alerta para repercussões como insônia, ansiedade, depressão, estresse crônico, pensamentos de morte, endividamento e rupturas familiares. Estudos internacionais mencionados pelo Ministério indicam que até 75% das pessoas com problemas relacionados às apostas podem apresentar outro transtorno mental associado.
Apesar de estimativas apontarem para milhões de brasileiros afetados, uma auditoria do Tribunal de Contas da União registrou, em 2025, que ainda faltavam dados oficiais consolidados capazes de dimensionar precisamente o número de pessoas com jogo patológico no país. Por isso, números como “1,4 milhão a 3 milhões” devem ser apresentados como estimativas, e não como diagnóstico fechado do Ministério da Saúde.
Terapia e reconstrução
Jasmine afirma que chegou à vida adulta com medo de abandono e com a sensação permanente de que precisava provar seu valor. O sentimento apareceu em relacionamentos amorosos, amizades e ambientes profissionais.
Durante muito tempo, acreditou que a ausência da mãe poderia ter sido culpa dela.
A terapia foi fundamental para compreender que nenhuma criança é responsável pela dependência ou pelo abandono de um adulto. Também ajudou Jasmine a enxergar que o vício da mãe não justificava os danos provocados, mas explicava parte do comportamento destrutivo.
“Precisei entender que não era culpa minha, assim como não foi uma escolha dela. Precisei entender que o vício era maior que ela”, declarou.
Hoje, sua principal decisão é impedir que o passado continue comandando suas relações. O perdão não apagou o sofrimento nem recuperou os anos perdidos, mas permitiu que Jasmine interrompesse, dentro de si, mais uma rodada do jogo que marcou sua família.
Pessoas que enfrentam problemas com apostas, assim como familiares e redes de apoio, podem procurar uma Unidade Básica de Saúde ou um Centro de Atenção Psicossocial. O Ministério da Saúde também disponibiliza informações e um autoteste no Meu SUS Digital. Em situações de crise emocional, o CVV atende gratuitamente pelo telefone 188.



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