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“Meu pai fuma só baseado”: documentário expõe memórias surpreendentes dos filhos da contracultura

por admin | ago 5, 2026 | Geral

Documentário “Nem Tudo É Paz e Amor” estreia em 27 de agosto e mostra as contradições enfrentadas por crianças criadas em famílias que desafiaram os padrões sociais nos anos 1970

Chegou a vez de os filhos contarem essa história. O documentário “Nem Tudo É Paz e Amor”, dirigido por Betão Aguiar, reúne descendentes de alguns dos principais nomes da música brasileira para revelar como foi crescer em famílias marcadas pela liberdade, pela experimentação e pela ruptura dos padrões tradicionais.

O longa estreia nos cinemas brasileiros em 27 de agosto de 2026, após passar pelo festival In-Edit Brasil, no qual teve quatro sessões esgotadas. Com 88 minutos de duração, a produção será distribuída pela Pandora Filmes.

Participam do documentário Moreno Veloso, filho de Caetano Veloso; Beto Lee, filho de Rita Lee; Ciça Moraes, filha de Moraes Moreira; Nara Gil, filha de Gilberto Gil; Sarah Sheeva, filha de Baby do Brasil e Pepeu Gomes; Anelis Assumpção, filha de Itamar Assumpção; além de outros representantes dessa geração.

Liberdade vista pelos olhos das crianças

A produção revisita a infância de quem cresceu nos bastidores da contracultura brasileira, cercado por música, psicodelia, debates políticos, relacionamentos fora dos padrões e resistência à ditadura militar.

O filme não se limita a celebrar a efervescência cultural da época. Os entrevistados também abordam a instabilidade, as ausências e as dificuldades de ser criança em ambientes nos quais muitas regras familiares estavam sendo questionadas ou abandonadas.

Primogênito de Caetano Veloso, Moreno Veloso, atualmente com 53 anos, resume uma das principais contradições apresentadas pelo documentário.

“Nossas famílias não eram tradicionais. Algumas vezes era lindo, outras vezes era confuso. Às vezes é difícil ser criança no ambiente em que é proibido proibir”, relata.

A frase faz referência ao espírito libertário que marcou os movimentos culturais do período, mas também revela que a ausência de limites claros poderia produzir insegurança e situações difíceis para as crianças.

Ciça Moraes recorda episódio na escola

Uma das passagens de maior impacto envolve Ciça Moraes, filha de Moraes Moreira, músico que integrou os Novos Baianos. Ela recorda uma pesquisa realizada pela professora dentro da sala de aula.

“A professora resolveu fazer uma enquete na turma e perguntou um por um: seu pai fuma? Quando chegou a minha vez, eu falei toda orgulhosa: ‘meu pai fuma só baseado’”, conta.

A declaração provocou alvoroço na escola e evidencia o contraste entre a rotina vivida por algumas dessas famílias e os valores predominantes na sociedade brasileira daquele período.

Uma história que Betão Aguiar conhece de perto

A direção é de Betão Aguiar, filho de Paulinho Boca de Cantor, um dos fundadores dos Novos Baianos. O projeto, portanto, também nasce da experiência pessoal do cineasta.

Sua mãe, a escritora Marília Aguiar, participa do filme. Ela é autora do livro “Caí na Estrada com os Novos Baianos”, no qual relata experiências relacionadas à trajetória do grupo.

Segundo a apresentação oficial, o documentário investiga as marcas deixadas por uma criação cercada por psicodelia, drogas, sexo, resistência política e revoluções comportamentais. Esses elementos aparecem misturados às necessidades comuns da infância, como fraldas, alimentação, escola, proteção e afeto.

Entre o privilégio e o caos

Os entrevistados cresceram próximos a artistas que transformaram a música e o comportamento no Brasil. Essa convivência proporcionou experiências extraordinárias, mas não eliminou conflitos familiares e traumas.

O longa procura justamente escapar de uma narrativa romantizada. A liberdade aparece como força criativa e política, mas também como uma experiência que poderia ser confusa para crianças que ainda precisavam de estabilidade, presença e segurança emocional.

Ao colocar os filhos no centro da narrativa, “Nem Tudo É Paz e Amor” oferece uma perspectiva menos conhecida sobre a contracultura. Em vez de observar apenas os artistas e suas obras, o filme analisa como suas escolhas chegaram à geração criada dentro daquele processo de transformação.

Ficha técnica

Produzido no Brasil e registrado como obra de 2025, o documentário possui 88 minutos. O roteiro é assinado por Betão Aguiar e Marco Korodi, que também responde pela montagem.

A fotografia é de Fabio Burtin e Bruno Graziano. A produção ficou sob responsabilidade de Carolina Trevisan, Késsya Fernandes e Julia Tolentino, com produção executiva de Minom Pinho e Betão Aguiar.

As exibições realizadas no In-Edit Brasil contaram com recursos de acessibilidade, incluindo legendas descritivas, audiodescrição e Libras.

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