Conglomerado nascido em Anápolis atua em alimentos, energia, mineração, celulose, produtos de consumo, finanças e comunicação; empresas ligadas ao grupo registraram receita próxima de R$ 490 bilhões em 2025
Todo mundo conhece a JBS. O que poucos sabem é que a maior companhia de proteínas do mundo representa apenas uma parte do conjunto de negócios construído pela família Batista nas últimas sete décadas.
A história começou em 1953, quando José Batista Sobrinho, conhecido como Zé Mineiro, abriu a Casa de Carnes Mineira, em Anápolis, Goiás. Com a construção de Brasília, o comerciante passou a fornecer carne para os trabalhadores envolvidos nas obras da nova capital federal.
Nas décadas seguintes, os filhos de Zé Mineiro ampliaram o negócio, adquiriram frigoríficos e transformaram a pequena operação familiar na JBS, atualmente uma multinacional presente em diferentes continentes.
Mas a estratégia da família não ficou restrita à carne.
Segundo informações institucionais, a J&F atua em mais de 20 países, reúne cerca de 297 mil colaboradores em aproximadamente 250 operações e registrou faturamento de cerca de R$ 490 bilhões em 2025. A holding apresenta cinco setores essenciais de atuação: alimentos, energia, mineração, celulose e produtos de higiene e beleza. O ecossistema empresarial também alcança serviços financeiros, tecnologia e comunicação.
Flora levou o grupo para dentro das casas
A Flora surgiu como uma divisão de higiene e limpeza da JBS e tornou-se uma empresa independente dentro da J&F em 2007.
Atualmente, possui 14 marcas comerciais, entre elas Minuano, Francis, Neutrox, Albany, OX Cosméticos, Brisa, Assim, Phytoderm, Kolene e Hydratta. A companhia opera nos segmentos de cosméticos, perfumaria, higiene pessoal e limpeza doméstica.
O nome é uma homenagem a Flora Mendonça Batista, esposa de Zé Mineiro e matriarca da família. A trajetória mostra como a estrutura criada originalmente em torno dos frigoríficos foi aproveitada para abrir novas frentes industriais.
Banco Original e PicPay colocaram a família no mercado financeiro
No setor financeiro, a família controla negócios como o Banco Original e o PicPay.
Fundado em 2012 e adquirido pela J&F em 2015, o PicPay deixou de ser apenas uma carteira digital e passou a oferecer conta, cartões, crédito, seguros e outros serviços financeiros.
Em 29 de janeiro de 2026, a companhia estreou na Nasdaq, em Nova York, sob o código PICS. O IPO movimentou US$ 434 milhões com a venda de 22,86 milhões de ações e avaliou a empresa em aproximadamente US$ 2,6 bilhões. A J&F permaneceu como controladora depois da oferta. Reuters
Âmbar avança no setor de energia
Criada em 2015, a Âmbar Energia expandiu sua presença por meio de usinas térmicas, hidrelétricas, unidades solares, comercialização de energia e distribuição de gás.
Em outubro de 2025, a empresa assinou contrato para comprar, por R$ 535 milhões, a participação da então Eletrobras — atual Axia Energia — na Eletronuclear. O acordo prevê ainda a assunção de garantias e compromissos financeiros relacionados à companhia.
Se a operação for concluída após as aprovações necessárias, a Âmbar ficará com 68% do capital total e 35,3% do capital votante da Eletronuclear. Mesmo assim, o controle da estatal responsável pelas usinas nucleares de Angra permanecerá com o governo federal, por meio da ENBPar. Reuters
LHG Mining transforma Corumbá em eixo estratégico
A entrada da J&F na mineração ocorreu em 2022, com a aquisição do Sistema Centro-Oeste da Vale. A transação teve valor empresarial estimado em US$ 1,2 bilhão, mas incluiu contratos logísticos e outros passivos; no fechamento, a Vale informou ter recebido US$ 150 milhões. Vale
Os ativos deram origem à operação da LHG Mining, que extrai minério de ferro de alto teor e manganês na região de Corumbá, em Mato Grosso do Sul.
A companhia informa possuir reservas certificadas de aproximadamente 1,4 bilhão de toneladas. A produção anual chegou à faixa de 12 milhões de toneladas, e o projeto de expansão prevê alcançar 25 milhões de toneladas por ano até 2029.
O sistema conta com portos e logística fluvial pela Hidrovia do Paraguai, conectando a produção sul-mato-grossense ao Uruguai e aos mercados internacionais.
Eldorado produz celulose em Mato Grosso do Sul
Outra operação estratégica da J&F em Mato Grosso do Sul é a Eldorado Brasil Celulose, instalada em Três Lagoas.
Inaugurada em dezembro de 2012, a fábrica possui capacidade nominal de 1,5 milhão de toneladas de celulose por ano, mas atualmente produz mais de 1,8 milhão de toneladas. A empresa mantém cerca de 300 mil hectares de florestas plantadas e uma estrutura própria de exportação.
Em 2025, a J&F passou a controlar integralmente a Eldorado após concluir a aquisição da participação que estava nas mãos da Paper Excellence.
Canal Rural ampliou presença na comunicação
O Canal Rural foi criado em 1996 pelo Grupo RBS, com participação da Globo. Em 2013, a J&F adquiriu a emissora e o portal Rural BR. O valor não foi divulgado oficialmente, mas reportagens da época estimaram a transação em aproximadamente R$ 40 milhões.
A compra aproximou ainda mais o conglomerado do público ligado ao campo, com atuação em televisão, plataformas digitais, eventos, leilões e produção de conteúdo especializado.
Atualmente, Canal Rural, Banco Original, PicPay, Fluxus e MGAS aparecem entre as empresas que integram o portfólio mais amplo do Grupo J&F. J&F
Irmã dos controladores investe em potássio
Fora da estrutura direta da J&F, outros integrantes da família também construíram negócios próprios.
Em 2025, a VL Holding, controlada por Valére Batista — irmã de Joesley e Wesley — adquiriu da Mosaic a única mina de potássio em operação no Brasil, localizada em Rosário do Catete, Sergipe.
A transação foi anunciada por US$ 27 milhões, além da assunção de aproximadamente US$ 22 milhões em obrigações ambientais. A empresa passou a se chamar Stratos.
A operação é estratégica porque o Brasil importa mais de 90% do potássio utilizado na fabricação de fertilizantes. A Stratos produziu aproximadamente 495 mil toneladas de cloreto de potássio em 2025 e estabeleceu a meta de chegar a 550 mil toneladas em 2026.
Leilão de cavalos movimenta R$ 257 milhões
José Batista Júnior, conhecido como Júnior Friboi, deixou a gestão da JBS em 2012 e passou a se dedicar à JBJ Agropecuária. Seu filho, Fabrício Batista, criou a JBJ Ranch, voltada à criação e comercialização de cavalos Quarto de Milha.
Em maio de 2026, a quinta edição do Leilão JBJ Ranch & Família Quartista, realizada em Nazário, Goiás, movimentou R$ 257 milhões com a venda de animais, coberturas e genética equina.
O destaque foi a negociação de 50% do garanhão Inferno Sixty Six, também apresentado como Gênesis 66, por R$ 44 milhões. O faturamento total superou em 71% a expectativa inicial de R$ 150 milhões. Bloomberg Línea
Diversificação explica crescimento
O avanço da família Batista não ocorreu apenas pelo crescimento da JBS. Ao longo do tempo, o grupo direcionou recursos e conhecimento para atividades conectadas à cadeia produtiva, como energia, logística, mineração, celulose, produtos de consumo, serviços financeiros e comunicação.
É importante, entretanto, diferenciar os negócios controlados pela J&F das empresas independentes pertencentes a irmãos, filhos e outros integrantes da família.
Setenta e três anos depois da abertura da Casa de Carnes Mineira, o pequeno açougue de Anápolis deu origem a um dos maiores conglomerados empresariais privados do Brasil — e a carne passou a representar apenas uma parte desse império.



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