Reconhecida como doença crônica, complexa e multifatorial, a obesidade exige acompanhamento individualizado, metas realistas e estratégias que possam ser mantidas ao longo da vida
A obesidade ainda é frequentemente tratada como um problema exclusivamente estético ou resultado de falta de disciplina. A ciência, porém, mostra uma realidade bem mais complexa: trata-se de uma doença crônica, multifatorial e com possibilidade de recorrência, influenciada por fatores genéticos, metabólicos, hormonais, psicológicos, sociais e ambientais.
Isso significa que alcançar determinado número na balança não representa necessariamente o fim do tratamento. Assim como ocorre com hipertensão e diabetes, controlar a doença exige acompanhamento, reavaliações periódicas e ajustes conforme a resposta e as necessidades de cada paciente.
A Organização Mundial da Saúde informa que, em 2022, uma em cada oito pessoas no planeta vivia com obesidade. Entre os adultos, 43% estavam acima do peso e 16% apresentavam obesidade. A prevalência mundial da doença entre adultos mais que dobrou desde 1990. Os dados são da OMS.
Cenário preocupa no Brasil e em Campo Grande
O Vigitel 2023, divulgado pelo Ministério da Saúde, identificou excesso de peso em 61,4% dos adultos entrevistados nas 26 capitais brasileiras e no Distrito Federal. A obesidade atingia 24,3% desse grupo, praticamente um em cada quatro adultos.
Em Campo Grande, o percentual estimado de adultos com obesidade chegou a 27%, acima da média das capitais. Entre os homens campo-grandenses, a frequência foi de 27,9%, a segunda maior registrada pelo levantamento, atrás somente de Macapá. Entre as mulheres da Capital, o índice ficou em 26,2%. Confira o Vigitel 2023.
Dados da Pesquisa Nacional de Saúde também mostram a velocidade do avanço do problema. Entre 2002/2003 e 2019, a proporção de brasileiros com 20 anos ou mais vivendo com obesidade passou de 12,2% para 26,8%. No mesmo período, o excesso de peso subiu de 43,3% para 61,7%. Os números são do IBGE.
Por que o peso pode voltar?
Após o emagrecimento, o organismo pode reagir com adaptações que dificultam a manutenção do resultado. Entre elas estão a redução do gasto energético de repouso e o aumento do apetite. Não se trata, portanto, apenas de “perder o foco”: há mecanismos biológicos tentando recuperar o peso anteriormente alcançado.
A Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade 2026, da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica, destaca que a recuperação de peso é comum após a interrupção de intervenções terapêuticas.
Nos estudos analisados pela entidade, a suspensão de alguns medicamentos esteve associada à recuperação média de 43% a 67% do peso perdido, dependendo do tratamento e do período avaliado. Isso não significa que todas as pessoas precisarão utilizar medicamentos indefinidamente, mas reforça que qualquer interrupção deve ser avaliada pelo profissional responsável.
Tratamento não pode ser igual para todos
Não existe uma fórmula única para tratar a obesidade. O plano pode envolver orientação alimentar, atividade física adaptada, melhora do sono, apoio psicológico, abordagem de episódios de compulsão, medicamentos e, em situações específicas, cirurgia bariátrica ou metabólica.
A escolha depende de fatores como grau da obesidade, histórico clínico, idade, composição corporal, condições emocionais, presença de diabetes, hipertensão, apneia do sono, doença cardiovascular, limitações físicas e tratamentos anteriores.
A decisão de utilizar medicamentos deve ser médica. Produtos usados sem prescrição, fórmulas clandestinas, doses improvisadas e substâncias adquiridas pela internet podem provocar eventos adversos e colocar a saúde em risco.
A balança não deve ser o único parâmetro
Embora a redução de peso possa trazer benefícios, o sucesso do tratamento não deve ser medido exclusivamente pela aparência ou pelo chamado “peso ideal”.
A diretriz da Abeso destaca que perdas superiores a 5% podem melhorar marcadores metabólicos, dores musculoesqueléticas e qualidade de vida. Reduções próximas de 10% podem contribuir para a melhora da apneia do sono e da saúde mental. Entretanto, os efeitos variam de uma pessoa para outra.
Pressão arterial, glicemia, colesterol, capacidade física, sono, mobilidade, disposição, saúde emocional e qualidade de vida também precisam entrar nessa avaliação.
Preconceito também adoece
O estigma contra pessoas com obesidade pode aparecer em ambientes familiares, profissionais e até nos serviços de saúde. Comentários ofensivos e abordagens baseadas em culpa não ajudam no tratamento; pelo contrário, podem aumentar sofrimento emocional, afastar o paciente do atendimento e favorecer comportamentos alimentares desordenados.
Reconhecer a obesidade como doença não significa retirar a autonomia do indivíduo. Significa compreender que escolhas pessoais são apenas uma parte de uma equação que também envolve biologia, renda, acesso a alimentos saudáveis, condições de trabalho, saúde mental, sono, segurança e espaços adequados para atividade física.
Cuidado contínuo não significa fracasso
Precisar de acompanhamento durante anos não representa fraqueza. A continuidade faz parte do próprio tratamento de uma doença crônica. Em alguns períodos, o paciente pode precisar de maior intervenção; em outros, apenas de monitoramento e manutenção.
O objetivo não deve ser perseguir mudanças rápidas para atender a um padrão estético, mas construir um cuidado possível, seguro e sustentável.
O enfrentamento da obesidade começa quando a culpa dá lugar à informação. E avança quando o paciente deixa de ser julgado pelo corpo e passa a ser acompanhado em sua totalidade.
Fontes: Organização Mundial da Saúde; Ministério da Saúde — Vigitel 2023; IBGE — Pesquisa Nacional de Saúde; Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade 2026 — Abeso.



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