Bebidas dietéticas podem ajudar na redução imediata do consumo de açúcar, mas não devem substituir a água nem ser consideradas uma solução para emagrecimento e saúde metabólica
A expressão “zero açúcar” costuma transmitir a ideia de que determinado produto pode ser consumido sem preocupação. No caso dos refrigerantes, porém, retirar o açúcar da fórmula não transforma automaticamente a bebida em uma opção saudável.
Para manter o sabor doce, as versões zero utilizam adoçantes como aspartame, sucralose, acessulfame-K, ciclamato ou sacarina. Essas substâncias reduzem significativamente as calorias da bebida e evitam a elevada ingestão de açúcar presente nas versões tradicionais, mas isso não significa que ofereçam benefícios nutricionais.
O refrigerante zero continua sendo um produto ultraprocessado, normalmente composto por água gaseificada, acidulantes, conservantes, aromatizantes, corantes e adoçantes. Além disso, não fornece fibras, vitaminas ou minerais em quantidades relevantes.
Estudos encontraram aumento da cintura
Um estudo publicado no Journal of the American Geriatrics Society acompanhou adultos com 65 anos ou mais durante aproximadamente nove anos. Os pesquisadores encontraram uma associação entre o consumo frequente de refrigerantes dietéticos e um aumento maior da circunferência abdominal.
Entre os participantes que consumiam essas bebidas diariamente, o aumento médio da cintura foi de aproximadamente 8 centímetros. No grupo que não bebia refrigerante diet, o crescimento ficou próximo de 2 centímetros.
O resultado, entretanto, não comprova que o refrigerante zero tenha provocado diretamente o aumento da gordura abdominal. Por se tratar de uma pesquisa observacional, fatores como alimentação, sedentarismo, excesso de peso anterior e condições metabólicas também podem ter influenciado os números.
Existe ainda a possibilidade da chamada causalidade reversa: pessoas que já apresentam obesidade ou risco de diabetes podem escolher bebidas dietéticas justamente na tentativa de controlar o peso.
Adoçantes e microbiota intestinal
Outro ponto investigado pela ciência é a relação entre adoçantes e as bactérias que vivem no intestino.
Um ensaio clínico randomizado publicado em 2022 na revista científica Cell avaliou 120 adultos que não consumiam adoçantes habitualmente. Durante duas semanas, os voluntários receberam sacarina, sucralose, aspartame ou estévia em quantidades inferiores aos limites diários considerados aceitáveis.
Os pesquisadores observaram alterações na microbiota intestinal dos participantes. Sacarina e sucralose também interferiram na resposta glicêmica de algumas pessoas.
Os efeitos não foram iguais para todos, o que indica que a reação pode variar conforme as características individuais de cada organismo e da própria microbiota. Como o experimento teve duração limitada, ainda são necessários estudos mais longos para determinar as consequências clínicas do consumo contínuo.
Por que a OMS mudou a orientação?
Em 2023, a Organização Mundial da Saúde passou a recomendar que adoçantes sem açúcar não sejam utilizados como principal estratégia para controle do peso ou prevenção de doenças crônicas.
Após revisar as evidências disponíveis, a entidade concluiu que substituir o açúcar por adoçantes não apresenta benefícios duradouros para a redução da gordura corporal. Estudos observacionais também identificaram possíveis associações do consumo prolongado com diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e mortalidade.
A recomendação da OMS é classificada como condicional porque parte das evidências apresenta baixa certeza e pode ser influenciada por características anteriores dos consumidores. A orientação não representa uma proibição dos adoçantes nem altera os limites de ingestão diária considerados seguros.
A diretriz também não foi elaborada como avaliação toxicológica e não se aplica da mesma maneira a pessoas com diabetes preexistente.
Zero pode ser uma troca temporária
Comparado ao refrigerante tradicional, o zero elimina uma quantidade expressiva de açúcar e calorias. Dessa forma, pode servir como alternativa temporária para quem consome regularmente bebidas açucaradas e pretende reduzir essa ingestão.
Ensaios clínicos mostram que a substituição de bebidas calóricas por versões sem calorias pode auxiliar modestamente no controle do peso em determinados contextos. Isso, no entanto, é diferente de afirmar que o refrigerante zero emagrece ou protege o metabolismo.
O principal objetivo deve ser reduzir gradualmente a dependência de bebidas com sabor excessivamente doce, sejam elas adoçadas com açúcar ou com substitutos.
Água deve ocupar o primeiro lugar
O Guia Alimentar para a População Brasileira recomenda evitar alimentos ultraprocessados e optar por água no lugar de refrigerantes. A orientação vale também para as versões diet, light e zero.
A água hidrata sem acrescentar açúcar, adoçantes, calorias ou aditivos. Para variar o consumo, também é possível utilizar água aromatizada naturalmente com frutas, hortelã ou outras ervas, sem adição de açúcar.
Trocar o refrigerante comum pelo zero pode ser um primeiro passo para diminuir o açúcar. O avanço mais importante, entretanto, é fazer com que a água volte a ser a principal bebida da rotina.
Fontes: Organização Mundial da Saúde; Ministério da Saúde; Anvisa; revista científica Cell; Journal of the American Geriatrics Society.



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