Alterações persistentes em células de gordura e do sistema imunológico ajudam a explicar por que emagrecer e manter o resultado envolve muito mais do que força de vontade
A dificuldade para perder peso — e, principalmente, evitar o reganho — costuma ser atribuída à falta de disciplina. Novas pesquisas, porém, reforçam que a obesidade é uma condição complexa, capaz de provocar alterações celulares e moleculares que podem permanecer no organismo mesmo depois do emagrecimento.
Esse fenômeno vem sendo chamado pelos cientistas de “memória da obesidade”. Não se trata de uma lembrança consciente, mas de marcas biológicas deixadas em células do tecido adiposo e do sistema imunológico.
Um novo estudo liderado por pesquisadores japoneses identificou um mecanismo que pode dificultar a eliminação de gordura após a obesidade. O trabalho foi publicado na revista científica Science Translational Medicine e analisou principalmente camundongos submetidos a uma dieta rica em gordura e, posteriormente, a um processo de emagrecimento.
Células da gordura mantiveram alterações
Os pesquisadores investigaram os macrófagos do tecido adiposo, células do sistema imunológico que vivem na gordura corporal. Elas ajudam a controlar inflamações e a eliminar células mortas ou danificadas — processo conhecido como eferocitose.
Os resultados mostraram que 51,9% dos genes que tiveram o processamento do RNA alterado durante a obesidade continuaram apresentando mudanças mesmo depois da perda de peso.
O problema estava relacionado ao chamado splicing alternativo, mecanismo que organiza as informações contidas no RNA mensageiro antes da fabricação de proteínas.
Nos animais estudados, a obesidade prejudicou o funcionamento da proteína CWC22, responsável por participar desse processamento. Parte das alterações persistentes identificadas pelos cientistas dependia diretamente dela.
Efeito dominó comprometeu a quebra de gordura
A disfunção da CWC22 afetou o gene Scarb1, reduzindo a presença de uma proteína importante na superfície dos macrófagos. Com isso, essas células passaram a remover com menor eficiência os resíduos presentes no tecido adiposo.
A falha também reduziu a disponibilidade de inosina, molécula envolvida na estimulação da lipólise — o processo pelo qual o organismo mobiliza e quebra a gordura armazenada.
Na prática, os pesquisadores observaram um efeito em cadeia: alteração no processamento do RNA, pior remoção de resíduos, redução de inosina e menor perda de gordura.
Em um experimento, o uso de uma molécula capaz de corrigir o processamento do Scarb1 restaurou parte do mecanismo e favoreceu a redução de gordura nos camundongos. A descoberta indica um possível caminho para tratamentos futuros, mas ainda não representa uma terapia disponível.
Embora a etapa funcional tenha sido realizada principalmente em animais, os pesquisadores também examinaram amostras humanas de tecido adiposo. Elas apresentaram diferenças na localização da CWC22 entre pessoas magras e pessoas com obesidade. Isso sugere relevância para seres humanos, mas não comprova que todo o mecanismo funcione da mesma maneira em pacientes. Os detalhes estão disponíveis no registro científico do estudo no PubMed.
Sistema imunológico pode guardar marcas por anos
Outra pesquisa publicada em 2026 na revista EMBO Reports encontrou uma forma diferente de memória biológica. O estudo, conduzido por uma equipe europeia liderada pela Universidade de Birmingham, analisou os linfócitos T CD4+, células que coordenam diferentes respostas imunológicas.
Os cientistas identificaram alterações na metilação do DNA — marcas químicas que não modificam a sequência genética, mas influenciam a ativação e o desligamento dos genes.
Segundo os autores, essas células podem permanecer predispostas a respostas inflamatórias exacerbadas durante anos após a perda de peso. A estimativa de que a recuperação completa possa levar entre cinco e dez anos ainda precisa ser confirmada por novos estudos de acompanhamento.
A pesquisa envolveu diferentes grupos de participantes, além de modelos animais e experimentos com células humanas. Os resultados associaram essa memória a mecanismos como autofagia e envelhecimento imunológico. O estudo completo pode ser consultado na EMBO Reports.
Emagrecer continua trazendo benefícios
A existência dessa possível memória biológica não significa que emagrecer seja inútil ou que o reganho seja inevitável. A redução sustentada do peso pode melhorar indicadores metabólicos, mobilidade, qualidade de vida e diferentes fatores de risco.
Os estudos indicam, contudo, que algumas alterações não desaparecem imediatamente. Isso reforça a importância do acompanhamento contínuo, com estratégias individualizadas de alimentação, atividade física, sono, saúde mental e, quando houver indicação médica, medicamentos ou cirurgia.
Os próprios pesquisadores destacam que a manutenção do peso ao longo do tempo pode permitir que determinadas marcas biológicas diminuam gradualmente.
A mensagem central é clara: obesidade não deve ser reduzida a preguiça, descontrole ou falta de força de vontade. Trata-se de uma condição influenciada por fatores genéticos, metabólicos, hormonais, ambientais, sociais e comportamentais.
Compreender como reduzir ou contornar a “memória” deixada pela obesidade poderá abrir novas possibilidades terapêuticas. Por enquanto, os resultados reforçam a necessidade de tratamento de longo prazo e de uma abordagem livre de estigmas.
Fontes: Science Translational Medicine/PubMed, EMBO Reports e Universidade de Birmingham.



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