Rimegepanto e atogepanto atuam diretamente em uma proteína ligada às crises e ampliam as opções para pacientes que não responderam aos tratamentos disponíveis
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou, em 2026, dois novos medicamentos orais contra a enxaqueca. O rimegepanto, comercializado como Nurtec ODT pela Pfizer, teve o registro publicado em maio. Já o atogepanto, vendido sob o nome Aquipta pela AbbVie, foi aprovado em setembro.
Os dois medicamentos pertencem à classe dos gepantos e atuam bloqueando o receptor do CGRP — peptídeo relacionado ao gene da calcitonina. Essa proteína participa da transmissão da dor e de sintomas como náusea, vômito e sensibilidade à luz e ao som.
A novidade amplia as alternativas para uma doença neurológica que afeta especialmente as mulheres. A enxaqueca pode ser até três vezes mais frequente no público feminino e está entre as maiores causas mundiais de incapacidade, sobretudo durante a idade reprodutiva.
Como os novos medicamentos funcionam?
Durante uma crise de enxaqueca, o organismo libera quantidades elevadas de CGRP. Ao se conectar aos receptores presentes no sistema nervoso, a proteína ajuda a transmitir os sinais relacionados à dor.
Os gepantos ocupam esses receptores e impedem a ligação do CGRP. Em uma comparação simples, o medicamento bloqueia a “fechadura” antes que a “chave” responsável por propagar o sinal doloroso consiga entrar.
Diferentemente dos analgésicos e anti-inflamatórios, que atuam de maneira mais ampla no organismo, os gepantos foram desenvolvidos especificamente para agir em mecanismos da enxaqueca.
Eles também não provocam a contração dos vasos sanguíneos observada com os triptanos, característica que pode limitar o uso dessa classe em pessoas com determinadas doenças cardiovasculares. Isso não significa, porém, que os novos medicamentos sejam adequados para todos: a indicação precisa ser individualizada pelo médico.
Qual é a diferença entre rimegepanto e atogepanto?
Os dois podem ser usados na prevenção de crises em adultos que apresentam pelo menos quatro dias de enxaqueca por mês, mas possuem indicações e esquemas diferentes.
O atogepanto é administrado diariamente e foi aprovado para a prevenção da enxaqueca episódica e crônica. A forma crônica é caracterizada por dor de cabeça em 15 ou mais dias por mês, durante mais de três meses, com características de enxaqueca em parte desses episódios.
O rimegepanto é indicado para a prevenção da enxaqueca episódica, com uso em dias alternados. O medicamento também pode ser utilizado no tratamento agudo da crise.
Até o momento, não há ensaios clínicos comparando diretamente as duas moléculas. A escolha deve considerar a frequência das crises, outras doenças, medicamentos utilizados, resposta a tratamentos anteriores e possibilidade de efeitos adversos.
O que os estudos mostraram?
No tratamento da crise, o rimegepanto foi avaliado em estudo clínico com aproximadamente 1.375 pacientes. Duas horas depois da administração, apresentou resultados superiores ao placebo tanto na ausência de dor quanto no alívio do sintoma considerado mais incômodo, como náusea ou sensibilidade à luz e ao som.
Para prevenção, um estudo com 747 participantes administrou rimegepanto ou placebo em dias alternados durante 12 semanas. Nas quatro últimas semanas, o grupo tratado apresentou redução média de 4,3 dias mensais de enxaqueca, contra 3,5 dias no grupo placebo.
O atogepanto também foi avaliado em estudos de fase 3. Em uma pesquisa com 910 pessoas com enxaqueca episódica, a dose diária de 60 mg reduziu, em média, 4,1 dias de enxaqueca por mês, diante de 2,5 dias no grupo placebo. Cerca de 59% dos participantes tratados tiveram redução de pelo menos 50% na frequência das crises, contra 29% entre aqueles que receberam placebo.
Em outro ensaio, envolvendo 778 adultos com enxaqueca crônica, a dose diária de 60 mg reduziu em média 6,9 dias mensais de enxaqueca após 12 semanas. No grupo placebo, a redução foi de 5,1 dias.
Apesar de estatisticamente favoráveis aos medicamentos, os resultados mostram que existe resposta também no grupo placebo e que nem todos os pacientes terão o mesmo benefício.
Efeitos colaterais e cuidados
A náusea aparece entre os efeitos adversos mais comuns dos dois medicamentos. O atogepanto também pode provocar prisão de ventre, cansaço e redução do apetite. No caso do rimegepanto, podem ocorrer desconforto abdominal e indigestão.
Reações de hipersensibilidade também são possíveis. Urticária, inchaço no rosto, boca ou garganta e dificuldade para respirar exigem atendimento médico imediato. Algumas reações podem aparecer horas ou até dias depois da administração.
Os medicamentos foram aprovados para adultos. A segurança durante a gestação, a amamentação e em crianças não está plenamente estabelecida, tornando indispensável a avaliação médica. Pessoas com problemas renais ou hepáticos e aquelas que utilizam outros remédios também devem informar essas condições ao profissional responsável.
E a enxaqueca menstrual?
As alterações hormonais do ciclo menstrual estão entre os principais gatilhos das crises em mulheres. Um estudo de fase 3 chamado Luna avaliou o atogepanto em 468 participantes durante o período menstrual.
De acordo com resultados iniciais divulgados pela AbbVie, as mulheres tratadas tiveram redução média de 1,2 dia de enxaqueca durante o período avaliado, contra 0,4 dia no grupo placebo.
Os dados, entretanto, foram anunciados pela fabricante e ainda precisam ser avaliados em publicação científica revisada por especialistas. O medicamento não possui indicação específica aprovada no Brasil para enxaqueca menstrual.
Quando chegam às farmácias?
Embora os registros tenham sido aprovados pela Anvisa, ainda não foram divulgados os preços nem as datas de chegada dos dois produtos às farmácias brasileiras.
A aprovação sanitária também não significa incorporação automática ao Sistema Único de Saúde ou cobertura obrigatória imediata pelos planos. Esses processos dependem de avaliações específicas de eficácia, segurança, custo e impacto orçamentário.
A enxaqueca não deve ser tratada apenas com automedicação. O uso frequente e indiscriminado de analgésicos pode piorar o quadro e provocar cefaleia por uso excessivo de medicamentos. O diagnóstico e a definição do tratamento devem ser feitos por médico, preferencialmente com acompanhamento neurológico.
Fontes: Anvisa, Organização Mundial da Saúde, The Lancet e bula profissional do Nurtec ODT — Pfizer.



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