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Bactéria encontrada em rã elimina tumores em camundongos e abre nova fronteira contra o câncer

por admin | ago 14, 2026 | Geral

Descoberta de cientistas japoneses alcançou resposta completa após uma única aplicação, mas pesquisa ainda é pré-clínica e não foi testada em seres humanos

A ciência acaba de revelar mais uma demonstração impressionante de como a natureza pode guardar respostas para alguns dos maiores desafios da medicina. Pesquisadores do Instituto Avançado de Ciência e Tecnologia do Japão (JAIST) descobriram que uma bactéria encontrada no intestino de uma rã-arborícola-japonesa conseguiu eliminar completamente tumores colorretais em camundongos após uma única aplicação intravenosa.

A bactéria, chamada Ewingella americana, apresentou o resultado mais expressivo entre os microrganismos analisados. No principal experimento comparativo, todos os cinco animais que receberam o tratamento alcançaram resposta completa, com desaparecimento detectável dos tumores.

O estudo foi publicado na revista científica Gut Microbes e liderado pelo professor Eijiro Miyako. Apesar dos resultados extraordinários, os pesquisadores ressaltam que o trabalho ainda está na fase pré-clínica. A estratégia não foi testada em seres humanos e deverá passar por novas etapas de segurança e eficácia antes de ser considerada uma possibilidade real de tratamento.

Ciência buscou respostas na biodiversidade

A equipe japonesa decidiu investigar microrganismos encontrados em animais que vivem em ambientes ricos em bactérias e apresentam características biológicas consideradas interessantes para a pesquisa.

Foram coletadas bactérias do intestino de três espécies:

  • rã-arborícola-japonesa (Dryophytes japonicus);
  • tritão-de-ventre-de-fogo-japonês (Cynops pyrrhogaster);
  • lagarto-das-gramíneas-japonês (Takydromus tachydromoides).

Ao todo, os cientistas isolaram 45 cepas bacterianas. Nove foram selecionadas para uma avaliação mais aprofundada, e oito demonstraram algum efeito significativo contra o crescimento tumoral.

Entre todas elas, a Ewingella americana, retirada do intestino da rã-arborícola, apresentou o desempenho mais potente.

Uma dose e resposta completa

Nos testes, camundongos com tumores derivados de câncer colorretal receberam uma única dose intravenosa da bactéria.

O grupo tratado com a Ewingella americana apresentou resposta completa em 100% dos animais. O experimento principal contou com cinco camundongos por grupo, acompanhados por até 60 dias.

Dentro das condições específicas do estudo, o tratamento bacteriano apresentou desempenho superior ao observado com quatro aplicações de doxorrubicina lipossomal, utilizada como quimioterapia, e do anticorpo anti-PD-L1, empregado em estratégias de imunoterapia.

O resultado não permite afirmar que a bactéria seja superior aos tratamentos utilizados em pacientes. A comparação aconteceu em um modelo animal, com poucos indivíduos e condições controladas de laboratório.

Ainda assim, a descoberta representa uma prova de conceito poderosa: microrganismos encontrados na biodiversidade podem servir de base para uma nova geração de terapias contra o câncer.

Bactéria atacou o tumor por dois caminhos

O efeito observado chamou a atenção não apenas pela intensidade, mas também pelo mecanismo de ação.

Ewingella americana é uma bactéria anaeróbia facultativa, capaz de sobreviver tanto em ambientes com oxigênio quanto em regiões com pouca oxigenação. Essa característica permitiu que ela se concentrasse no interior dos tumores, onde geralmente há áreas hipóxicas.

Entre três e 24 horas depois da aplicação, a quantidade de bactérias no tecido tumoral aumentou aproximadamente 3 mil vezes.

A ação ocorreu por duas frentes:

  • ataque direto às células cancerígenas;
  • ativação do sistema imunológico do animal.

A presença da bactéria estimulou a chegada de células T, células B e neutrófilos ao tumor. Também houve aumento de moléculas inflamatórias como TNF-α e IFN-γ, envolvidas na resposta imunológica contra células anormais.

Em testes de laboratório, a bactéria apresentou efeito tóxico direto contra estruturas formadas por células tumorais. No organismo dos camundongos, esse ataque foi reforçado pela mobilização das defesas naturais.

Possível memória contra o câncer

Outro resultado considerado promissor foi observado quando animais que haviam eliminado os tumores voltaram a ser expostos às células cancerígenas.

Eles não desenvolveram novos tumores, indicando que o tratamento pode ter estimulado uma espécie de memória imunológica. Na prática, o organismo teria aprendido a reconhecer e combater aquelas células.

Essa conclusão, porém, ainda precisa ser confirmada em experimentos maiores e em diferentes modelos de câncer.

Segurança deverá ser analisada com rigor

Nos camundongos, a bactéria foi rapidamente eliminada da corrente sanguínea, com meia-vida aproximada de 1,2 hora e ausência de detecção no sangue após 24 horas.

Os pesquisadores também não observaram colonização persistente em órgãos como fígado, pulmões, rins, coração e baço. A resposta inflamatória foi descrita como leve e temporária, normalizando-se em aproximadamente 72 horas. Durante 60 dias de acompanhamento, não foram identificados sinais relevantes de toxicidade crônica.

Esses resultados, entretanto, não comprovam que a aplicação seja segura em seres humanos. A Ewingella americana é uma bactéria Gram-negativa e já foi relacionada, em casos raros, a infecções oportunistas.

Uma eventual terapia intravenosa exigirá estudos rigorosos sobre dose, controle da bactéria, possibilidade de infecção, inflamação sistêmica e efeitos em pessoas com o sistema imunológico comprometido.

Próximos passos da pesquisa

A equipe pretende estudar a ação da bactéria em outros tumores sólidos, incluindo câncer de mama, câncer de pâncreas e melanoma.

Também serão avaliadas diferentes formas de administração, como aplicação diretamente no tumor, fracionamento das doses e associação com quimioterapia ou imunoterapia.

O caminho entre uma descoberta em camundongos e a chegada de um novo tratamento aos hospitais costuma ser longo. Envolve testes adicionais em animais, estudos toxicológicos, autorização de autoridades sanitárias e diferentes fases de ensaios clínicos com voluntários.

Mesmo assim, o trabalho mostra por que investir em ciência é fundamental. Uma bactéria escondida no intestino de uma pequena rã japonesa pode oferecer pistas para uma estratégia inédita contra uma das doenças que mais desafiam a humanidade.

Não é possível dizer que foi encontrada uma cura para o câncer. Mas é possível afirmar que a ciência encontrou uma nova porta — e acaba de começar a investigar o que existe do outro lado.

Fontes

Estudo “Discovery and characterization of antitumor gut microbiota from amphibians and reptiles: Ewingella americana as a novel therapeutic agent with dual cytotoxic and immunomodulatory properties”, publicado na Gut Microbes, e comunicado oficial do JAIST

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