Esqueça a toalha, os pratos alinhados e a mesa de jantar. Em Gante, na Bélgica, basta abrir uma tábua de passar roupa, colocar as bebidas por cima e começar a confraternização.
A cena parece ter saído de uma comédia: moradores atravessam a cidade a pé, de bicicleta ou de transporte público carregando tábuas de passar debaixo do braço. Mas ninguém está indo organizar uma força-tarefa para eliminar roupas amassadas. O destino é a tradicional recepção pública de Ano-Novo promovida pela prefeitura.
Ao chegarem ao Stadshal, o conhecido Pavilhão Municipal de Gante, os participantes abrem as tábuas e transformam o objeto doméstico em uma espécie de bar portátil. Em cima delas aparecem cervejas, espumantes, queijos, salgadinhos, petiscos e tudo o que uma boa confraternização exige.
A lógica é simples: a tábua é leve, dobrável, fácil de transportar e possui uma altura conveniente para apoiar copos, garrafas e alimentos. Resumindo: pode não passar nenhuma camisa durante a festa, mas passa com louvor no teste de improvisação.
Costume ganhou as redes sociais
Vídeos mostrando jovens circulando com tábuas de passar viralizaram nas redes sociais e fizeram o costume ser apresentado como uma brincadeira criada por universitários belgas.
Gante é uma importante cidade universitária e recebe aproximadamente 66 mil estudantes por ano. A região da Overpoortstraat, com mais de 35 bares, é considerada um dos principais pontos da vida noturna estudantil.
Apesar disso, a tradição das tábuas mais bem documentada não é exclusiva dos universitários. A recepção de Ano-Novo é aberta a todos os moradores e reúne jovens, idosos, famílias e grupos de amigos.
Também não existem evidências suficientes para afirmar que o hábito seja comum em todas as cidades universitárias da Bélgica ou que as pessoas circulem regularmente entre diferentes festas e raves carregando as tábuas. A prática está diretamente ligada à celebração realizada em Gante.
A prefeitura já entrou na brincadeira
O costume ficou tão integrado ao evento que a própria Prefeitura de Gante passou a mencioná-lo em suas divulgações oficiais. Em uma das chamadas para a celebração, o prefeito Mathias De Clercq convidou os moradores a prepararem suas tábuas enquanto o município providenciaria as bebidas.
A administração municipal também faz uma recomendação indispensável: depois da confraternização, cada participante deve levar sua tábua de volta para casa. Afinal, uma cidade inteira pode até improvisar um bar, mas ninguém quer transformar a praça em uma lavanderia abandonada.
Milhares de pessoas e bebidas gratuitas
Em janeiro de 2025, a 24ª edição da recepção reuniu aproximadamente 13,5 mil pessoas sob e ao redor do Stadshal. Segundo a Prefeitura de Gante, foram distribuídas 28 mil bebidas gratuitas, incluindo cerveja, vinho quente, água, refrigerantes, sucos e sopa.
O público aumentou no encontro realizado em janeiro de 2026. Cerca de 15 mil moradores participaram da celebração, enquanto mais de 20 mil bebidas foram entregues. Muitos levaram petiscos e, naturalmente, suas inseparáveis tábuas de passar.
O evento ainda conta com apresentações culturais, músicos, artistas de rua e atividades espalhadas pelo espaço. O encerramento acontece tradicionalmente com o público cantando “Klokke Roeland”, composição ligada à identidade cultural da cidade.
Quem inventou a ideia?
A origem exata ainda não está completamente esclarecida. Uma reportagem do jornal belga Het Nieuwsblad relata que participantes começaram a levar tábuas por considerá-las estáveis e espaçosas o suficiente para acomodar comidas e bebidas.
A solução chamou atenção e foi copiada nos anos seguintes. Aos poucos, o improviso doméstico virou uma brincadeira coletiva e, posteriormente, uma tradição reconhecida pela própria cidade.
Em Gante, portanto, a tábua de passar ganhou uma função muito mais festeira. A roupa pode continuar amassada, mas a cerveja fica bem apoiada.
Fontes: Prefeitura de Gante, serviço oficial de turismo Visit Gent, emissora regional AVS e jornal belga Het Nieuwsblad.



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