Estudos mostram que o organismo pode conservar alterações biológicas mesmo após o emagrecimento. Em meio à explosão mundial da obesidade, especialistas defendem que o problema deixe de ser tratado apenas como uma questão de disciplina individual.
A frase é provocativa e, se interpretada literalmente, está errada: “uma vez obeso, obeso para sempre”. Uma pessoa que viveu com obesidade pode emagrecer e manter uma redução importante de peso. O que a ciência vem mostrando, porém, é que o organismo não necessariamente retorna ao mesmo estado biológico de alguém que nunca desenvolveu obesidade.
Esse detalhe muda o debate.
O desafio não termina quando a balança registra um número menor. Depois do emagrecimento, mecanismos relacionados à fome, saciedade, gasto energético e tecido adiposo podem contribuir para recuperar parte do peso perdido. Pesquisas recentes chegaram a identificar sinais de uma possível “memória da obesidade” nas próprias células de gordura.
O fenômeno ajuda a explicar por que tratar obesidade exclusivamente com frases como “coma menos”, “tenha disciplina” ou “feche a boca” é uma simplificação de uma doença muito mais complexa.
E o alerta chega justamente quando a obesidade se transforma em um dos grandes desafios sanitários deste século.
Um problema que já atinge centenas de milhões
A dimensão mundial impressiona. A Organização Mundial da Saúde estima que, em 2022, 2,5 bilhões de adultos estavam com excesso de peso e mais de 890 milhões viviam com obesidade.
Isso significa que aproximadamente 43% dos adultos do planeta apresentavam excesso de peso e 16% obesidade. A prevalência mundial de obesidade entre adultos mais do que dobrou desde 1990. Entre adolescentes, quadruplicou.
Nas Américas, o cenário é particularmente preocupante: segundo a OMS, 67% dos adultos apresentavam excesso de peso em 2022, maior proporção entre as regiões consideradas pela organização.
Não se trata, portanto, de uma mudança estética da população. É uma transformação epidemiológica com consequências para diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, alguns tipos de câncer, problemas osteoarticulares e diversas outras condições.
Brasil também enfrenta uma escalada do excesso de peso
O avanço brasileiro vem ocorrendo há décadas.
Dados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 mostraram que 61,7% dos brasileiros com 20 anos ou mais apresentavam excesso de peso, enquanto 26,8% tinham obesidade. Em 2002-2003, essas proporções eram, respectivamente, 43,3% e 12,2%.
Ou seja: em menos de duas décadas, a prevalência de obesidade entre adultos mais que dobrou.
O Ministério da Saúde possui atualmente um Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas específico para sobrepeso e obesidade em adultos, reforçando a necessidade de abordagem estruturada da condição dentro da assistência à saúde.
O corpo pode “lembrar” da obesidade?
É aqui que o debate ganha uma dimensão nova.
Um estudo publicado na revista científica Nature encontrou evidências de que o tecido adiposo pode conservar alterações associadas à obesidade mesmo depois de uma perda significativa de peso.
Os pesquisadores analisaram tecido adiposo humano e experimentos com camundongos. Em humanos, encontraram alterações de expressão gênica persistentes após o emagrecimento. Nos animais, também foram identificadas mudanças epigenéticas persistentes nos adipócitos — as células responsáveis pelo armazenamento de gordura.
Nos camundongos, essa “memória obesogênica” esteve associada a ganho de peso mais rápido quando os animais voltaram a ser expostos a uma dieta rica em gordura.
Uma análise publicada na Nature Reviews Endocrinology destacou posteriormente que adipócitos, células endoteliais e células precursoras mantiveram alterações transcricionais no tecido humano estudado.
Isso não significa que uma pessoa que teve obesidade inevitavelmente voltará a engordar. Tampouco permite concluir que a obesidade seja irreversível.
Significa que o emagrecimento pode não apagar imediatamente todas as marcas biológicas deixadas pela doença.
A balança baixa, mas a batalha pode continuar
O conceito ajuda a desmontar uma ideia bastante disseminada: a de que atingir o “peso ideal” representa o encerramento do tratamento.
Na prática, a manutenção pode ser justamente uma das etapas mais difíceis.
O organismo possui sistemas de regulação energética que respondem à perda de peso. Alterações em mecanismos de fome, saciedade e gasto energético podem favorecer o reganho. Some-se a isso genética, qualidade da alimentação, atividade física, sono, medicamentos, saúde mental, renda, ambiente alimentar e acesso a tratamento.
Por isso, a OMS atualmente descreve a obesidade como uma doença crônica e recidivante, resultante da interação complexa entre genética, neurobiologia, comportamento alimentar e fatores ambientais e sociais.
É muito diferente de simplesmente “falta de força de vontade”.
A era das canetas também muda o debate
A discussão ganhou outra dimensão com a popularização dos medicamentos para obesidade, especialmente terapias baseadas em incretinas.
Os resultados obtidos por alguns pacientes reacenderam uma questão fundamental: se a obesidade é uma doença crônica, o tratamento também precisa ser encarado no longo prazo?
Essa pergunta é especialmente relevante porque a interrupção de uma estratégia terapêutica não elimina necessariamente os mecanismos que contribuíram para o desenvolvimento da obesidade.
O mesmo raciocínio vale para dietas extremamente restritivas: perder muitos quilos rapidamente não significa que os mecanismos responsáveis pelo ganho de peso tenham desaparecido.
A discussão deveria, portanto, ir além de “qual dieta emagrece mais” ou “qual medicamento emagrece mais rápido”. O desafio real é descobrir como prevenir, tratar e manter os resultados de forma segura e sustentável durante anos.
Obesidade também pesa no sistema de saúde
As consequências ultrapassam a balança.
Um estudo divulgado pela Fiocruz Brasília estimou que a obesidade infantojuvenil gerou R$ 225,7 milhões em custos ao SUS entre 2013 e 2022, considerando doenças associadas à condição.
Outro trabalho publicado nos Cadernos de Saúde Pública estimou que o consumo de bebidas açucaradas esteve associado, direta ou indiretamente, a cerca de 1,8 milhão de casos de doenças e 12,9 mil mortes no Brasil, além de bilhões de dólares em custos médicos, considerando problemas como diabetes, doenças cardiovasculares, câncer e efeitos relacionados ao IMC.
Os números ajudam a dimensionar por que obesidade não pode ser discutida apenas no consultório.
O ambiente também engorda
Transformar toda a responsabilidade em uma decisão individual ignora uma parte importante do problema.
A obesidade ocorre dentro de um ambiente no qual alimentos ultraprocessados são amplamente disponíveis, pessoas passam horas sentadas, deslocamentos dependem frequentemente de automóveis, sono insuficiente tornou-se comum e alimentos de melhor qualidade nem sempre são acessíveis a todas as famílias.
Isso não elimina a responsabilidade individual sobre hábitos. Mas mostra que comportamento, biologia e ambiente atuam simultaneamente.
A epidemia mundial de obesidade dificilmente poderia ser explicada simplesmente por uma súbita perda coletiva de disciplina.
“Obeso para sempre” não. Uma doença que exige atenção contínua, sim
A frase atribuída ao médico nutrólogo Alexandre Martins — “uma vez obeso, obeso para sempre” — funciona melhor como provocação do que como definição científica.
Não existe sentença inevitável de reganho de peso.
Mas as evidências recentes reforçam uma mensagem importante: ter emagrecido não significa necessariamente que a vulnerabilidade biológica ao ganho de peso desapareceu.
A descoberta de alterações persistentes no tecido adiposo abre inclusive novas perguntas científicas. Quanto tempo essa memória permanece? Ela pode ser revertida? O tempo vivendo com obesidade interfere? Medicamentos, exercício, alimentação ou cirurgia alteram essa memória?
Ainda não existem respostas definitivas.
O que já está claro é que a obesidade precisa sair do terreno da culpa.
O problema não começa apenas no prato, não termina quando a balança diminui e não pode ser enfrentado somente com força de vontade.
Com quase 900 milhões de adultos vivendo com obesidade no mundo e indicadores brasileiros crescendo ao longo das últimas décadas, discutir prevenção, alimentação, atividade física, tratamento, medicamentos, ambiente alimentar e acompanhamento de longo prazo deixou de ser uma questão estética.
É uma questão de saúde pública.


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