Relatório da ONU mostra avanço no combate à fome global, mas alerta que o ritmo ainda é insuficiente para cumprir metas até 2030
A população mundial que enfrenta a fome diminuiu pelo terceiro ano consecutivo. Segundo o relatório SOFI 2026 (O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo), divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU), cerca de 645 milhões de pessoas passaram fome em 2025, o equivalente a 7,8% da população global.
O número representa uma redução de quase 14 milhões de pessoas em comparação com 2024 e de 43 milhões em relação a 2022. Apesar da melhora, os organismos internacionais alertam que o avanço ainda é lento diante da meta global de erradicar a fome até 2030.
O levantamento foi elaborado pela FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), FIDA, OMS, Programa Mundial de Alimentos (PMA) e Unicef.
Durante a apresentação do relatório em Roma, o diretor-geral da FAO, Qu Dongyu, destacou que os resultados mostram progresso, mas exigem aceleração das políticas públicas.
“Acabar com a fome e tornar dietas saudáveis acessíveis exige compromisso político, investimento sustentado e políticas que facilitem esse acesso”, afirmou.
Insegurança alimentar ainda afeta mais de 2 bilhões de pessoas
Além da fome extrema, o estudo aponta que cerca de 2,1 bilhões de pessoas viviam em situação de insegurança alimentar moderada ou severa em 2025.
Esse cenário ocorre quando as pessoas não têm acesso regular a alimentos suficientes ou de qualidade nutricional adequada.
O índice global caiu para 25,8% da população mundial, contra 27,1% em 2024 e 28,7% em 2020.
Na prática, isso significa que aproximadamente 86 milhões de pessoas deixaram essa condição em apenas um ano e cerca de 135 milhões saíram da insegurança alimentar desde o auge da pandemia.
África concentra os maiores desafios
Embora Ásia, América Latina e Caribe apresentem avanços graduais, a África continua sendo a região mais afetada.
O continente concentra cerca de 309 milhões de pessoas em situação de fome, o equivalente a uma em cada cinco pessoas.
Os números revelam que:
- 20% da população africana enfrentou fome em 2025;
- 56,6% viviam em insegurança alimentar moderada ou severa;
- 66,6% não conseguiam pagar uma alimentação saudável.
O crescimento populacional acelerado, conflitos, mudanças climáticas e dificuldades econômicas ajudam a explicar o cenário.
Mulheres e crianças seguem entre os mais vulneráveis
O relatório também mostra que mulheres e crianças continuam sendo os grupos mais afetados pela má alimentação.
Entre 2021 e 2025:
- Apenas 62,7% das mulheres entre 15 e 49 anos tiveram acesso à diversidade alimentar mínima recomendada;
- Cerca de uma em cada três mulheres não conseguiu manter uma alimentação suficientemente variada;
- Apenas 30,8% das crianças entre 6 e 23 meses consumiram uma dieta minimamente diversificada.
Outro dado preocupante aponta que 150 milhões de crianças menores de cinco anos ainda sofrem com atraso no crescimento causado pela desnutrição.
Além disso, os casos de anemia entre mulheres em idade fértil continuam aumentando globalmente.
Alimentação saudável continua cara
Apesar da redução no número de pessoas que não conseguem pagar por uma alimentação saudável, o problema permanece gigantesco.
Em 2025, cerca de 2,69 bilhões de pessoas não tinham condições financeiras para adquirir uma dieta adequada.
O custo médio global de uma alimentação saudável subiu para US$ 4,28 por pessoa ao dia, acima dos US$ 3,44 registrados em 2021.
A América Latina e o Caribe apresentaram o maior custo médio do planeta, chegando a US$ 4,91 por pessoa diariamente.
Especialistas defendem investimentos em infraestrutura agrícola, irrigação, armazenamento, logística, pesquisa e desenvolvimento para reduzir os preços e ampliar o acesso a alimentos nutritivos.
Conflitos e clima podem ameaçar avanços
O relatório alerta que os progressos conquistados nos últimos anos ainda são frágeis.
Entre os principais riscos para os próximos anos estão:
- Conflitos armados em diferentes regiões do mundo;
- Impactos das mudanças climáticas;
- Possíveis efeitos dos eventos climáticos extremos, como o El Niño;
- Redução do financiamento humanitário internacional;
- Queda da ajuda oficial de governos para programas de desenvolvimento.
Segundo a FAO, fortalecer os sistemas agroalimentares será essencial para evitar retrocessos e garantir segurança alimentar para as populações mais vulneráveis.
Mesmo com a queda da fome global pelo terceiro ano consecutivo, os números demonstram que o desafio continua enorme: quase um terço da humanidade ainda enfrenta dificuldades para acessar uma alimentação saudável e adequada.


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