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Terapia genética livra jovem da anemia falciforme e marca avanço histórico em Nova York

por admin | ago 13, 2026 | Geral

Tratamento utilizou células-tronco do próprio paciente, modificadas em laboratório para produzir uma hemoglobina capaz de impedir a deformação dos glóbulos vermelhos

Um jovem de 21 anos tornou-se o primeiro paciente do estado de Nova York a ser considerado livre da anemia falciforme após receber o Lyfgenia, uma terapia genética produzida a partir das próprias células-tronco do paciente.

O procedimento foi realizado no Cohen Children’s Medical Center, hospital ligado à rede Northwell Health, em New Hyde Park, na região de Long Island. A infusão das células geneticamente modificadas ocorreu em 17 de dezembro de 2024, e o resultado foi divulgado pelo hospital em março de 2025.

O paciente, identificado como Sebastien Beauzile, convivia com a doença desde os primeiros meses de vida. A primeira crise teria ocorrido quando ele tinha apenas quatro meses. Durante cerca de duas décadas, enfrentou episódios intensos de dor, atendimentos médicos frequentes e períodos de internação.

Depois do tratamento, Beauzile deixou de apresentar as crises dolorosas características da doença e começou a retomar atividades que antes eram limitadas pela condição. A equipe responsável passou a considerá-lo livre da enfermidade.

Apesar de os médicos utilizarem o termo “cura”, pesquisadores também adotam a expressão “cura funcional”, já que os pacientes precisam permanecer sob acompanhamento durante muitos anos para que a duração dos resultados e possíveis efeitos tardios sejam avaliados.

Como funciona a terapia genética

O medicamento utilizado foi o Lyfgenia, nome comercial do lovotibeglogene autotemcel. A terapia foi aprovada pela agência reguladora dos Estados Unidos, a FDA, em dezembro de 2023.

Diferentemente de um transplante convencional de medula óssea, o tratamento utiliza células-tronco retiradas do próprio paciente. Dessa forma, não é necessário encontrar um doador compatível e o risco de rejeição é reduzido.

Em laboratório, as células recebem cópias funcionais de uma versão modificada do gene da beta-globina. Essa alteração faz com que o organismo produza a hemoglobina HbA^T87Q, capaz de dificultar o processo que deixa os glóbulos vermelhos rígidos e em formato de foice.

Após a modificação, o paciente passa por uma quimioterapia de alta intensidade. O objetivo é eliminar parte das células da medula óssea e abrir espaço para as células geneticamente tratadas.

Em seguida, o material é devolvido ao organismo por meio de uma infusão intravenosa. Quando chegam à medula, as células modificadas passam a produzir novos glóbulos vermelhos com hemoglobina antiafoiçamento.

Embora seja comum dizer que a terapia “corrige o gene”, o Lyfgenia não remove diretamente a mutação original. O procedimento acrescenta às células-tronco uma cópia funcional modificada do gene, permitindo a produção de uma hemoglobina que reduz ou impede a deformação das hemácias.

Estudos indicaram fim das crises em 88% dos pacientes

Nos dados analisados pela FDA, 28 dos 32 pacientes avaliados, o equivalente a 88%, ficaram completamente livres de eventos vaso-oclusivos entre seis e 18 meses após a infusão.

Esses eventos acontecem quando as células em formato de foice bloqueiam a passagem do sangue pelos vasos. Além de dores intensas, as obstruções podem provocar AVC, infecções, lesões nos rins, pulmões e outros órgãos.

Os resultados são considerados promissores, mas ainda não representam garantia de resposta para todos os pacientes. Como a terapia é relativamente nova, os efeitos de longo prazo continuam sendo acompanhados.

Tratamento também envolve riscos

A terapia genética não é um procedimento simples. Antes de receber as células modificadas, o paciente precisa passar por quimioterapia mieloablativa, que pode provocar queda das células de defesa, anemia, redução das plaquetas, feridas na boca, febre, náuseas, diarreia, perda de cabelo, infecções e comprometimento da fertilidade.

O Lyfgenia também possui o alerta de segurança mais rigoroso da FDA devido à ocorrência de casos de câncer hematológico entre pessoas tratadas. A recomendação é que os pacientes sejam monitorados durante toda a vida, com exames de sangue periódicos.

O medicamento está indicado nos Estados Unidos para pessoas a partir dos 12 anos com doença falciforme e histórico de eventos vaso-oclusivos, desde que tenham condições clínicas para suportar todas as etapas do tratamento.

Custo milionário limita o acesso

Outro desafio é o custo. O preço de lançamento anunciado para o Lyfgenia foi de US$ 3,1 milhões por paciente. O valor não inclui todas as despesas com coleta das células, quimioterapia, internação, exames e acompanhamento médico.

Além da barreira financeira, poucos hospitais possuem laboratórios, equipes especializadas e estrutura para realizar um procedimento tão complexo. Por isso, embora a tecnologia represente uma mudança histórica, ela ainda está distante da maioria das pessoas que convivem com a doença.

Doença atinge milhões de pessoas

A doença falciforme é uma condição genética provocada por uma mutação no gene HBB, responsável pela produção de uma parte da hemoglobina.

Com a alteração, os glóbulos vermelhos podem se tornar rígidos e assumir o formato semelhante ao de uma foice. Essas células têm dificuldade para circular pelos vasos sanguíneos, morrem mais rapidamente e podem bloquear o fluxo de sangue.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, aproximadamente 7,74 milhões de pessoas viviam com a doença falciforme em 2021. Naquele ano, foram estimados 515 mil nascimentos com a condição, quase 80% deles na África Subsaariana.

A anemia falciforme é a manifestação mais grave do grupo de doenças falciformes. Entre as complicações estão anemia crônica, crises de dor, infecções, AVC, insuficiência renal e danos progressivos aos órgãos.

Durante décadas, o tratamento esteve concentrado no controle dos sintomas, prevenção das crises, transfusões sanguíneas e uso de medicamentos como a hidroxiureia. O transplante de medula óssea já oferecia possibilidade de cura, mas dependia da existência de um doador compatível.

O resultado alcançado em Nova York não representa a primeira cura da doença no mundo. O marco está relacionado ao primeiro paciente do estado tratado com o Lyfgenia e considerado livre da anemia falciforme.

Mesmo cercado por custos elevados e riscos importantes, o caso demonstra como a medicina genética pode transformar doenças hereditárias antes tratadas como condições permanentes.

Fontes: Northwell HealthFDA e Organização Mundial da Saúde.

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